PRÁTICAS EDUCATIVAS POPULARES EM EDUCAÇÃO DO CAMPO: SOB UM OLHAR FENOMENOLÓGICO
Janaina Santana da Costa (GPMSE/UFMT)
Profº Dr. Luiz Augusto Passos ( GPMSE/UFMT)
Resumo
Profundas transformações têm sido observadas no trabalho rural brasileiro, seja no que diz respeito à incorporação de novas tecnologias e processos produtivos no meio rural, seja pela crescente subordinação do homem do campo à economia de mercado. Dentro desse processo encontramos a escola do campo com foco no atendimento aos assentados da reforma agrária, que se depara com a falta de uma educação voltada para a realidade onde vivem. Trilhar o caminho em educação do campo é necessariamente uma viagem ontológica em ouvir, corporificar as angústias e as revoltas dos protagonistas imersos na luta social. De maneira geral, não há uma proposta político-pedagógica e nem de política pública que priorize, em assentamentos, cursos de capacitação técnica voltados para a área agrícola, que poderiam gerar maior interação social. Isso significa dizer que uma das formas de promover a inclusão econômica, social e educacional da maior parte da população é elevar a qualidade de vida e garantir o acesso a meios e oportunidades, principalmente por intermédio da escola pública. Pretendemos fazer entrevistas com pais, professores, alunos, profissionais da educação e comunidade em geral, a fim de obter uma percepção das condições de educação e moradia no assentamento; a pesquisa qualitativa pretende contribuir na construção de um projeto político pedagógico que compreenda as diversidades étnico-cultural da educação do campo no estado.
Palavras-chave: educação do campo, temporalidade, alteridade.
A BORDO NO CAMPO DOS TEMPOS E ESPAÇOS DE VIDA
Historicamente o fracasso da educação brasileira, relativo ao analfabetismo, repetência, evasão escolar, etc. decorre, entre outros, da formação inadequada de professores, escolas pouco atrativas e distantes da realidade (MST,1991), retratando, assim, um quadro que reflete a exclusão num país em pleno desenvolvimento econômico. Tal quadro agrava-se ainda mais quando se trata da educação do campo, onde se somam as classes multisseriadas, cicladas, nucleadas, com professores despreparados para trabalharem com a realidade do campo, escolas distante e grande mobilidade das famílias.
As atividades do Projeto de pesquisa estão sendo desenvolvidas na Escola Estadual e Municipal “Paulo Freire” localizada no assentamento Antonio Conselheiro, a uma distância de oitenta e dois quilômetros do município de Barra do Bugres – Mato Grosso. O assentamento Antonio Conselheiro faz fronteira com três municípios da região do Médio Norte do estado de Mato Grosso. A Escola “Paulo Freire” do assentamento tem por decreto de criação o ano de 2000. O assentamento conta com aproximadamente mil famílias assentadas, sendo muitas delas oriundas do Movimento Sem Terra (MST). O interessante é o valor que tem o estudo para as famílias dos estudantes, incentivam seus filhos crianças e jovens a estarem na Escola.
Educar para o desenvolvimento como liberdade humana no campo passou a ter um novo entendimento sobre o que é necessário para desenvolver o potencial das novas gerações. Frente a esse novo desafio, o Relatório da Unesco (UNESCO: 2003) apresenta contribuições valiosas para Educação no século XXI, que a educação só terá sentido se praticada como um processo de construção de conhecimento, no centro do qual está o educando, seus interesses e necessidades.
Não se trata de um tempo conciso, absoluto, estático representados por calendários, relógios; etc. Mas um tempo intrínseco, perceptivo, subjetivo onde “sujeito e tempo se comunicam” (PASSOS, 2003:164). Atribuem a Terra (BACHELARD:)o principio de tudo, ela é a Mãe (BOFF,1999). Sendo assim cultivamos o enraizamento que para Cardart (2002: p.141), “enraizamento é uma das necessidades do ser humano. É ter raiz”,nos diz ela, participando realmente de uma coletividade que conserva viva certos tesouros do passado.
Negarmos ou desconhecemos a história de nossos alunos, desrespeitamos e desvinculamo-nos do processo pedagógico, ao contribuir no desenraizamento (MORIN, 2000) fixando-o num presente sem laços e sem estimas.
Sorrateiramente, busco nesta ‘viagem’ inédita repousar numa interlocução de cunho fenomenológico compreender que por trás das indicações geográfica e da frieza dos dados estatísticos está uma parte do povo brasileiro que vive neste lugar e com suas relações sociais especificas que compõe a vida no e do (MOLINA, 2004) campo. Em suas diferentes identidades e em sua identidade comum; estão pessoas de diferentes idades, estão famílias, comunidades, organizações, movimentos sociais. Trata-se de uma educação dos e não para os sujeitos do campo (ARROYO, 1999). Feita sim através de políticas públicas, mas construídas com os próprios sujeitos dos direitos que as exigem. Com o entardecer, ao sol que se põe na imensidão do infinito encerro estas páginas, repercutindo, provocando conjuntamente com os teóricos abordados por meio de um diário de bordo tornar público mais real a minha vivencia que como para Jorge Larrosa (2005):
“experiência é aquilo que nos acontece, com ênfase ao nos como o lugar da experiência, estabelecendo a relação entre a experiência e subjetividade”. Abrem-se neste momento as possibilidades de discussão e interlocuções.
Para guiar nossos passos nessa caminhada utilizaremos como metodologia a inserção da interlocução das temporalidades ante a alteridade posta neste processo de constituição humana no espaço escolar. Para tanto o método escolhido na execução da pesquisa é de cunho qualitativo. A priori já realizamos um levantamento documental da escola e paralelamente entrevistas das histórias de vida vem sendo realizada com os pais, educandos, professores e os demais profissionais da educação. Acredito que os fatores apresentados se justificam ante este projeto de pesquisa por compreender que a escola é um organismo vivo, organismo este composto por um conjunto de partes que se integram e interagem entre si. Sendo assim, torna-se imprescindível assumir que todos os sujeitos que compõem deste organismo são Escola (LOPES & FERREIRA TIBYSIRÁ: 2004). Ontologicamente imbricados em reconhecer o campo como espaço emancipatório, como um território fecundo de construção da democracia e da solidariedade por ter se transformado não apenas no lugar das lutas por melhores condições de vida, mas também pelo direito à educação, à saúde entre outros. Não se trata, portanto, de uma identidade circunscrita a um espaço geográfico, mas sim, vinculada aos sujeitos sociais a quem se destina, os povos do campo. Assim, ressalto que a educação do campo é maior que a escola, pois está presente no movimento e na organização do seu povo. Muito embora a escolarização seja importante, temos claro que ela é apenas um dos tempos e espaços da constituição humana.
E para continuarmos a trilhar novos caminhos, encerro este trabalho poeticamente:
Bibliografia:
ARROYO, Miguel e FERNANDES, B.M.. A educação básica e o movimento social do campo. Articulação Nacional: Por uma educação básica do campo. São Paulo,1999.
BACHELARD, Gaston. A Terra e os devaneios da vontade: ensaios sobre a imaginação das forças. Trad. Maria Ermantina Galvão. 2ªed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano _ compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
LARROSA, Jorge; SKLIAR, Carlos (org.). Habitantes de Babel: Políticas da diferença. Trad. Semíramis G. da Veiga. Belo Horizonte: Autentica, 2001.
MOLINA, Mônica C.; JESUS, Sonia Meire S. A. de.(org.). Contribuições para a construção de um projeto de Educação do Campo. Brasília, DF: Articulação Nacional “Por uma educação do Campo, 2004. Vol.05”.
MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.
MST. O que queremos com as escolas dos assentamentos. Caderno de Formação n.°18. São Paulo: MST, 1991.
PASSOS, Luiz Augusto. Currículo, tempo e Cultura. Tese ( Doutorado)- Educação e Currículo: Orientador Profº. Dr. Alípio Dias Casali. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). São Paulo: 2003. 488p.
UNESCO. Educação um tesouro a descobrir. 8 ed.São Paulo: Cortez; Brasília,DF:MEC,2003.
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA. LOPES, Ana Maria de Oliveira; FERREIRA, Eudson de Castro (Assessores do Projeto). TBYSIRÁ - Educação do Campo e Visibilidade Social: uma experiência no sertão do Araguaia. 2004. 244 páginas.
SEMERARO, Giovani.(org.) Filosofia e política na formação do educador. Aparecida, SP: Idéias &Letras, 2004.
Janaina Santana da Costa E-mail: crissoljana@hotmail.com
Luiz Augusto Passos E-mail: passos@cpd.ufmt.br