MODALIDADE: COMUNICAÇÃO ORAL

GT: EDUCAÇÃO E MEIO AMBIENTE

 

 

REVELANDO SABERES AMBIENTAIS DE PROFESSORAS RIBEIRINHAS

 

INTRODUÇÃO

 

O presente trabalho é resultado parcial do estudo desenvolvido junto ao Programa de Pós – Graduação do Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso na área de Educação, Cultura e Sociedade na linha de pesquisa de Educação e Meio Ambiente.

Mediante a inúmeras análises e definição da abordagem a ser desenvolvida durante o programa de Pós - Gradução – Mestrado, vários caminhos e labirintos foram percorridos até depararmos com a escolha da temática a ser estudada.

A princípio as intenções deste estudo, era de conhecer a “Cultura da População Ribeirinha do rio Paraguai no Município de Cáceres e a Educação Ambiental: Relações de Proximidade e Afastamento com a Educação Escolarizada e não Escolarizada”, não se concretizando, tomando posteriormente novos rumos com a escolha de outra temática “A Educação Ambiental no Município de Cáceres Entre as Décadas de 60 e 90: Dimensão e Aplicabilidade na Atualidade”, penetrando na discussão das ações empreendidas pelos órgãos institucionais, incluindo ai o papel da escola, e o resultado das ações propostas por meio da participação da população e dos segmentos organizados. Proposta esta, também descartada.

Outra proposta então foi levantada, de direcionarmos toda a atenção e de incluir nos estudos, a figura das professoras ribeirinhas como protagonistas de todo um enredo em construção. Vislumbrou-se o tema “Professoras Ribeirinhas: Guardiãs do Pantanal”, na perspectiva de valorizar e enaltecer o papel da mulher frente à construção do cenário educacional e da incansável luta do alcance da cidadania e da preservação do Meio Ambiente em meio às práticas pedagógicas desenvolvidas no cotidiano escolar ribeirinho, pantaneiro no município de Cáceres.

Analisando meticulosamente tal proposta e seguindo os conselhos da Profª. Drª Maria Aparecida Morgado e do Prof. Dr. Luiz Augusto Passos, de que a mesma estaria abarcando uma série de fatores, os quais não oportunizariam o alcance dos objetivos a que queríamos chegar, ou seja, uma leitura real do universo escolar vivido por professoras ribeirinhas no intuito de discuti-lo e de valorizá-lo. Optamos, portanto, em trabalhar o enfoque: “Revelando Saberes Ambientais de Professoras Ribeirinhas (Rio Paraguai - Pantanal de Cáceres - Mato Grosso)”, abordagem que possibilitou chegarmos a um consenso geral.

Definido o tema, passamos à discussão do método e da metodologia a ser empregada. Após várias leituras e tomando como referências outras pesquisas, prevaleceu trabalharmos com o método da história oral, da oralidade. Utilizando como suporte técnico, a metodologia de historia de vida na perspectiva de uma pesquisa qualitativa.

 Posteriormente tendo definido o método e a metodologia, encaminhamos para a escolha das protagonistas, das colaboradoras para a construção deste trabalho.

Incorporamos dentro do contexto, a história de vida das professoras Emídea de Souza Pinheiro, Feliciana Torres e Severiana de Faria, reconhecidamente como professoras ribeirinhas por atuarem junto à população ribeirinha do Rio Paraguai no Município de Cáceres, exercendo as funções de educadoras nas escolas municipais: “Caiçara”, “Porto Limão” e “Raquel Ramão da Silva” respectivamente, nas séries iniciais do ensino fundamental, antigo curso primário. Não atemos em mencionar precisamente as séries escolares, já que as professoras atuaram em séries diferenciadas durante o exercício do magistério.

Entre encontros e desencontros, sem perder a essência e o caráter do trabalho a ser construído, decidimos limitarmos a falar sobre a história de vida dessas professoras, por considera-las guardiãs da memória e dos saberes. Saberes estes incorporados pelas práticas pedagógicas, absorvidas pelas experiências e vivências no cotidiano das escolas localizadas às margens do rio Paraguai, no Pantanal de Cáceres.

Experiências e vivências que possibilitam fazermos uma reflexão do ambiente em que se encontravam e que se encontram inseridas. Uma reflexão proporcionada através da leitura e da releitura desse universo complexo em que, as experiências, as vivências falam mais alto.

 Guardiãs do tempo, do espaço e das mudanças, eis que trazem no bojo de sua trajetória de vida toda uma história, uma enorme gama de saberes que somente podem ser revelados com a ajuda de suas narrativas, de seus depoimentos, através da própria fala, fazendo do ambiente ribeirinho sua vida, seu palco de atuação, como ilustram os poetas e compositores Paulo André e Ruy Barata em uma de suas composições melódicas: “este rio é minha rua”. Rua dos acontecimentos e dos saberes que foram vividos e incorporados por essas professoras no meio ambiente ribeirinho.

Ao abordarmos as histórias de vida dessas professoras, estas passam a ser protagonistas que nos irão possibilitar com toda a sua singularidade e riqueza, clarear e nos fazer conhecedores da realidade educacional e ambiental dessa região.

Revelando Saberes Ambientais de Professoras Ribeirinhas (Rio Paraguai – Pantanal de Cáceres - Mato Grosso)” é o ponto de partida e de chegada do trabalho que propomos a fazer a partir desse enfoque.

Como base teórica metodológica da construção do diálogo para a pesquisa, escolhemos os fundamentos de história de vida pautados nos estudos de Paul Thompson, Ecléia Bossi, Selva Guimarães Fonseca, Verena Alberti, Aspásia Camargo, José Carlos S. B. Mehy.

Vale ressaltar que os dados obtidos nas entrevistas orais coletadas a priori e as que serão coletadas a posteriori, por intermédio de gravador e armazenadas em fitas cassete, foram e serão transcritas obedecendo às normas impostas pelo método da história oral. Os materiais iconográficos: fotografias, mapas; utilizados como ilustração do trabalho serão relacionados na listagem de figuras.

Durante o decorrer da construção da pesquisa, serão mantidos quantos encontros foram necessários para que possamos dispor de dados substanciais para a finalização dos trabalhos.

Este estudo será apresentado em quatro capítulos, sendo que no primeiro capítulo estaremos relatando s caminhos percorridos e a construção das histórias, o que nos permitirá refletir sobre a construção da pesquisa. O segundo capítulo relata os procedimentos metodológicos adotados: o lócus da pesquisa; o método utilizado; a metodologia empregada; a escolha das professoras; as entrevistas; e as transcrições das narrativas obtidas. No terceiro capítulo estaremos abordando sobre a história de vida das professoras: elos educativo-ambientais. E no quarto e capítulo estaremos refletindo sobre a Educação Ambiental a partir da prática cotidiana das professoras. Por último as reflexões finais; as fontes bibliográficas e um breve histórico sobre o autor.

O referido estudo objetiva à oportunidade de obtermos um recorte da realidade ambiental do lócus da pesquisa e, que provavelmente possa ser ampliado para a reflexão das práxis pedagógicas vividas e experienciadas a partir das ações individuais propostas por essas professoras, e na possibilidade da compreensão de uma realidade ainda maior no campo da educação e do meio ambiente para outras pesquisas, bem como, de conhecermos como os saberes  locais são apropriados por essas professoras e ressignificados no fazer pedagógico.

  Entre outros objetivos e motivos pelos quais, nos suscitaram a desenvolver esse estudo está relacionado o fato de dar voz àqueles que não fazem parte da história e que sempre estiveram à margem do processo construtivo da sociedade.

2.2 O Método da Pesquisa

 

 

A opção em trabalhar com o método da história Oral se deve ao fato de ser um método que possibilita ao pesquisador trazer o ser humano para o centro das pesquisas, conforme ilustra MEIHY (1996, p. 37):

 

 “A história oral é construída em torno das pessoas. Ela lança a vida para dentro da própria história e isso alarga seu campo de ação. Admite heróis vindos não só dentre os líderes, mas dentre a maioria dos desconhecidos do povo”.

           

E é isso que valoriza os aspectos da pesquisa. Não podemos deixar de mencionar o que diz THOMPSON (1992) com relação ao método da história oral:

 

“estou interessado em mudanças sociais. Este método muda a história, porque permite ouvir vozes de pessoas que não fazem parte da história dominante. E há todo um processo privado na vida familiar que vem à tona. Como material de pesquisa também é melhor. Você pode ter documentos de empregadadores e sindicatos, por exemplo, mas é sempre melhor, obter a história oral para saber o que realmente aconteceu entre as pessoas. (Folha de São Paulo, 28/1994, pp. 3-5 apud Fonseca, p. 37).

 

THOMPSON deixa bem claro a importância da utilização do método da história oral nas pesquisas com relação à aproximação da verdade; considerando o trabalho com entrevistas ou depoimentos, o meio mais eficaz quando se quer obter alguma informação e uma aproximação maior do objeto pesquisado.

THOMPSON admite a história oral como um mecanismo capaz de responder aos questionamentos empregados nas pesquisas como um instrumento armado, estruturado por regras que qualificam como atividade profissional, acadêmica, de iniciados e, sobretudo fundamentados em valores teóricos que, mais que nada, perfilam-se no princípio da humanização das ciências, para a construção de estudos em pesquisas dessa natureza. Segundo ilustra MEIHY (1996, p. 50):

 

 “... se por um lado a história oral é filha de desencontros e de vazios acadêmicos, é no cruzamento e na plenitude de seus potenciais que floresce como uma atividade que tem sido considerada a esperança em diferentes quadrantes universitários”.

 

É importante que façamos todas essas reflexões, antes mesmo de relatarmos os caminhos percorridos, na construção da história de vida das professoras e com relação à definição do método adotado nesta pesquisa.

Mediante a muitas controvérsias com relação à utilização da história oral como método, podemos afirmar que a decisão final em tê-lo como aporte na construção do referido estudo, nos custou e exigiu um longo período de leituras, reflexões e interpretações sobre o mesmo.

Após conhecermos as mais variadas concepções a acepções adotadas e empregadas por outros estudiosos e pesquisadores no campo da história oral: sociólogos, antropólogos, historiadores, psicólogos entre outros; é que optamos em conduzir a pesquisa por este método.

Pressentimos no decorrer dos estudos que ao embasarmos a pesquisa pelo método da história oral, estaríamos alcançando os nossos objetivos. Esses objetivos estão colocados na relevância em dar à pesquisa, conforme afirma MEIHY (1996, p. 50): “... um sentido de documento vivo, não se limitando apenas na busca de informações, dados, confronto de idéias ___ propondo que possamos perceber o impacto dos acontecimentos, em nível subjetivo, tanto do indivíduo quanto da sociedade, através da influência exercida por ele mesmo”.

Para MEIHY (1996, p. 52), isso significa que:

 

“A história oral rompe com a tradição de superadas práticas de áreas que tratavam o depoente como objeto, como ator, como informante. No lugar deste estoque que adjetiva o parceiro que presta o depoimento como apêndice da pesquisa, apresentamos o conceito de”colaborador”, dando sentido a uma nova relação entre quem faz a entrevista e quem presta a narrativa”.

 

Resumindo. A história oral possibilita a experiência de trabalhar com depoimentos orais e de se apropriar de forma progressivamente produtiva, da riqueza desses relatos, de forma dialógica, permitindo que as reflexões acompanhem todo o processo, levando-o a contínuas modificações úteis na construção da pesquisa, de acordo com os interesses do entrevistado e do entrevistador.

 

2.3. Da Metodologia empregada

 

Antes de falarmos a respeito da metodologia empregada é importante conceituarmos o que diz MEIHY (1996), com relação ao método da história oral: “A história oral, se subdivide em três gêneros distintos, a saber: História Oral Temática, Tradição Oral e história Oral de Vida”.

Para Fonseca (1998, p. 35) apud TOSH (1984) dentro da bibliografia cada tendência exerce uma particularidade que influencia a maneira de conduzir as pesquisas:

 A história oral temática privilegia a coleta de depoimentos e entrevistas orais que esclareçam determinadas temáticas.

A tradição oral, segundo a autora, se referindo a outros autores estudiosos do assunto, “costumam tratar como sendo uma única coisa, história oral e tradição oral”. É utilizada mais como técnica de observação do estudo de grupos, ou seja, o grupo tem mais importância que o indivíduo em si.

 Com relação à história oral de vida, as narrativas não são apenas fonte de informações para o esclarecimento de problemas do passado, ou um recurso para preenchimento de lacunas da documentação escrita __ “na história oral de vida as vivências e as representações individuais ganham relevâncias”.

 Ainda citando a autora: “As experiências e as vivências dos indivíduos, construtivas de suas trajetórias, são rememoradas, reconstruídas e registradas a partir do encontro de dois sujeitos: narrador e pesquisador”.

Observando essas definições é que tomamos como aporte o referencial teórico metodológico, a tendência da história oral de vida, fundamentando nossos estudos e nos orientando no percurso da construção da pesquisa: escolha das colaboradoras, no caso as professoras; as entrevistas; a técnica de transcrição dos relatos fornecidos pelas participantes.

 

2.4. A Escolha das Professoras

 

Esta talvez seja a etapa mais interessante vivida durante a preparação da execução da pesquisa que experienciamos.

Em meio a tantas idéias e na busca de encontrarmos informações que nos levassem à construção de histórias de vidas, permeadas por ricas lembranças, de experiências e vivências que nos proporcionasse “revelar saberes ambientais”, saberes estes apreendidos na trajetória de vivida por professoras que atuaram em ambientes ribeirinhos, este era um dos nossos desafios.

Num primeiro momento, recorremos às pessoas mais velhas e moradoras da cidade de Cáceres, com a intenção de colher informações à respeito das professoras mais antigas a atuarem na educação, em escolas da rede pública e particular do município. Foi como voltar no tempo, devido às inúmeras descobertas e reavivamento das lembranças. Alguns nomes foram surgindo e compondo o cenário da educação cacerense. Entre os nomes lembrados figuravam personalidades que não se encontram mais em nosso meio, e que, prestaram enormes serviços na tarefa de educar, às quais dedicamos também este estudo.

Um das pessoas a contribuir com esses dados foi o Professor Miguel Senatore. Professor aposentado e atual “Curador do Museu Municipal de Cáceres”. O mesmo nos ajudou a construir a história da educação do município de Cáceres, nos relatando sobre as primeiras escolas implantadas na cidade de Cáceres e os primeiros professores a atuarem no ensino educacional. Gostaria aqui de abrir um parêntese e dizer, que sem essas informações, não teríamos encontrado a direção para a nossa pesquisa.

Outra contribuição valiosa para a construção dos nossos estudos, nos foi dada pela figura do ilustre cidadão cacerense Pedro Paulo Pinto de Arruda e sua atenciosa esposa Ana Maria, que prazerosamente nos relatou parte da história das professoras que se deslocavam da Capital mato-grossense até Cáceres, em carros de bois (único transporte da época, principalmente nas estações chuvosas em que o pantanal sofre as cheias) com o compromisso de ensinar.

Estas são somente algumas das informações e algumas das pessoas que nos ajudaram na obtenção de dados para nossos estudos. Se fossemos citar a todos e a todas, não terminaríamos tão cedo.

De posse das informações obtidas sobre as professoras, passamos a analisar os nomes que tínhamos em mãos. Direcionamos a princípio então, nossas atenções para os critérios de escolha. Adotamos a escolhas das colaboradoras (professoras) utilizando o critério etário e o fato de serem aposentadas, posteriormente, por terem exercido suas funções em escolas localizadas mais distantes, próximas e dentro do perímetro da cidade, podendo dessa forma nos dar um recorte maior das experiências vividas por essas professoras e da realidade ambiental local.

Há de se levar em conta que para procedermos tal escolha valeu-nos a questão, que, durante a coleta de informações fornecidas pelas pessoas que nos auxiliaram a conhecer a história da educação no município de Cáceres, estas pessoas, nos forneceram alguns dados a respeito das professoras que acabaram contribuindo com a nossa decisão. 

Assim, chegamos ao consenso, optando pelas pessoas das professoras Emídea de Souza Pinheiro, Feliciana Torres e Severiana de Faria, nossas ilustres colaboradoras.

Após definirmos a escolha das professoras, partimos para as entrevistas.

 

2.5. As Entrevistas

 

            É crescente especialmente no Brasil, o interesse de pesquisadores ligados às diversas áreas das ciências humanas pela História Oral ou pela realização de trabalhos que utilizam fontes orais. (MEIHY, 1996. p.33) apud LONG (1996).

            No ponto de vista da pesquisadora Alice Beatriz da Silva G. Long, aqui citada na obra de José Carlos S. B. Meihy __“(Re) introduzindo História Oral no Brasil[1], no qual reúne artigos dos trabalhos apresentados no I Encontro Regional de História Oral Sudeste/Sul, a pesquisadora atesta a freqüência com que são apresentadas as comunicações referentes a trabalhos relacionados à História Oral, nos últimos anos. Porém, todas se restringem a um denominador comum, a utilização de fontes orais de formas mais variadas ___ “com ou sem reflexão sobre os procedimentos adotados e metodologia que os informam dando quase todos  pesquisadores, especial atenção à coleta de dados através de entrevistas”.

            Neste trabalho, especificamente não temos a intenção de realizar entrevistas para coleta de dados, mas, de registrar os relatos orais a partir de uma concepção de diálogo de forma livre e espontânea. Nem por isso, poderíamos deixar de discutir essas relações, já que pretendemos estar fundamentado em procedimentos metodológicos que sustente a cientificidade da pesquisa.  Thompson (1992, p. 258).

            Ainda sobre o assunto, LONG[2], faz um questionamento: “será que, apenas por se basearem fontes orais, um trabalho se configuraria como sendo História Oral? O que efetivamente caracteriza a História Oral: seria uma metodologia, uma técnica ou mesmo uma postura?”.

            E assim a pesquisadora apresenta essas reflexões que para a fundamentação deste trabalho tem muito significado.

            Ao escolhermos trabalhar com a história oral ou a história oral de vida, como já foi apresentada anteriormente, estabelecemos um estudo que apontasse os caminhos a percorrer em todos os sentidos, que nos guiasse e desse concretude aos nossos objetivos __ o trabalho com a oralidade. Daí a nossa preocupação em estarmos teoricamente bem fundamentados para poder ir a campo.

            Em meio a toda essa discussão e a bem da verdade, LONG coloca em discussão as posições divergentes existentes entre pesquisadores da área da Historia oral, qual não poderíamos deixar no anonimato e que queremos entender.

            Segundo LONG (1996, p. 35) apud QUEIROZ (1996)[3] ___ “História Oral seria um termo amplo, que recebe tipos variados de relatos obtidos através de fontes orais, a respeito de fatos não registrados por outro tipo de documentação, de ângulo diverso. A história oral registra a experiência vivida ou o depoimento de um individuo ou de vários indivíduos de uma mesma coletividade”.

            Vale ressaltar que nossa intenção também não é de recobrir ou complementar relato ou outro tipo qualquer de documento e sim ouvir a fala dos envolvidos na pesquisa. Porém, não podemos ignorar tal discussão. Como estamos trabalhando com história de vida a partir de informações fornecidas através de fontes orais, é que nos detivemos em estar discutindo o assunto, até mesmo para nos posicionarmos frente à questão relacionadas com quem participa da pesquisa, nos fornecendo as entrevistas. Seriam eles narradores, informantes, depoentes, ou colaboradores? Qual o enfoque que daríamos às entrevistas e aos entrevistados?

            Para LONG “as fontes orais podem assumir a forma de histórias orais de vida, relatos orais de vida ou de depoimentos orais”. E conceitua a historia oral de vida é o relato de um narrador sobre sua existência através do tempo, onde os acontecimentos vivenciados são relatados experiências e valores transmitidos, a par dos fatos da vida pessoal.

            O relato oral de vida seria uma forma menos ampla e livre, solicitado ao narrador que aborde, de modo mais especial determinados aspectos de sua vida, apesar de ter total liberdade de exposição, porém o entrevistado sabe o interesse do pesquisador e direcionar seu relato para determinados tópicos, por determinada temática.

            Os depoimentos orais são empregados na busca da obtenção de dados informativos e factuais, ou como testemunho sobre sua vivencia em determinadas situações, ou a participação em determinadas instituições que se quer estudar.

            Para LONG, a forma mais difundida e mais utilizada de coleta de dados orais é a entrevista, que se realiza basicamente em um processo de conversação entre o pesquisador e o narrador.

            Diante de tantas controversas e discussões, com a pretensão de chegarmos a um consenso, optamos em tratar os entrevistados como narradores, colaboradores, de todo esse processo. E diante dos conceitos aqui colocados em apreciação e estudo, limitamo-nos a tratar as informações obtidas dos colaboradores. Como narrativas, percepções, dando a coleta de dados o tratamento de entrevistas.

            Este não é um estudo sobre dados ou fatos em si, relatos, mas sobre percepções de professores, fundados em narrativas individuais que busca conhecer a história de vida de cada uma dessas professoras, de suas vivências e experiências, construídas para atravessar os tempos, sempre abertas às interpretações, chamando a si leituras e reflexões duradouras (Fonseca, 1996). E nisso reside sua força e seu caráter construtivo e aberto, conservando seu valor, provocando, em muitas gerações, espanto, polemicas, debates e, sobretudo, aprendizado, principalmente dos saberes ambientais que queremos atingir.

            Segundo Fonseca (1996, p. 16) apud Benjamin (1985), “a verdadeira narrativa “não se entrega”. Ela conserva suas forças e, depois de muito tempo ainda é capaz de se desenvolver...”

            Pautados nesses fundamentos é que partimos para o trabalho de ouvir os colaboradores desse estudo.

Para Thompson (1982, p. 118) “As entrevistas mostram ser não apenas um recurso substitutivo de fontes melhores, mas, em si mesma, uma fonte muito nitidamente valiosa”.

            O levantamento das possíveis pessoas a serem ouvidas, deu-se inicialmente, de forma bastante aleatória, a partir dos critérios etários e de escolhas dos ambientes localizados em pontos estratégicos, conforme mencionado anteriormente, com relação à escolha das colaboradoras. As entrevistas foram realizadas nos locais, horários e datas definidas pelos narradores. A maioria delas foi feita em suas próprias residências, em espaços tranqüilos, aconchegantes e num clima de descontração e afetividade. Outras vezes se deu à sombra de frondosas árvores dos quintais das casas.

            Antes do início de cada entrevista. Geralmente houve longas conversas que possibilitaram rememorar o que já havia sido narrado.

            Nos primeiro momento, estabelecemos que o narrador fale livremente sobre seu percurso de vida.

            Apesar de termos instituídos a entrevista livre, isso não significou que à medida que o discurso fluía, não houvesse algumas intervenções no sentido de estímulo para obtenção de mais conteúdo para a pesquisa. Não nos radicalizamos totalmente nas entrevistas livres. Segundo Fonseca (1997, p. 50) “isso não significa que o pesquisador não possa conduzir a pesquisa em história oral”.

            De posse dessas primeiras informações sentimos a necessidade de introduzirmos algumas perguntas básicas, com relação à sua família, sua infância, o modo de vida, a vida na escola, com a questão da formação: onde estudou, como e onde iniciou a carreira. Sobre o modo de ensinar: preparação das aulas, livros didáticos e outros materiais de ensino, como realizava o ensino da disciplina de ciências. Como ilustra THOMPSON (1997, P.262):

 

“(...) na maioria dos projetos, você precisará de alguns fatos anteriores básicos a respeito de todos os informantes, ocupação da mãe e do pai; nascimento, instrução, empregos, casamento, etc., do próprio informante”.

 

            Outro fato que procuramos observar no decorrer das entrevistas, foi em relação a concepção de memória, a qual nos fundamentamos nas perspectivas de trabalho apontadas por BOSI (1993, p. 17): “Lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado”.

A autora chama a atenção, que nas entrevistas podemos nos valer de outros recursos visuais como: fotografias, mapas, figuras, jornais, entre outros.

O tempo das entrevistas variou de acordo com a disponibilidade das entrevistadas, das interferências de natureza física e das condições do ambiente em que estavam sendo realizadas (presença de alguém, barulho, entre outras intempéries naturais).

Nas entrevistas realizadas com a Professora Feliciana Torres, foi preciso o deslocamento até a Comunidade de Porto Limão, que fica a 40 quilômetros da cidade de Cáceres, onde esta reside.

Quanto às entrevistas realizadas com a professora Severiana estas foram realizadas na cidade de Barra do Bugres, onde reside atualmente.

Estabeleci em preservar um espaço de tempo entre as entrevistas com cada uma das professoras, para análise e transcrição do material registrado, e até mesmo pela questão de que elas pudessem rememorar outros fatos.

A realização das entrevistas foi sempre encarada como um trabalho aberto e sujeito a mudanças das histórias narradas.

THOMPSON (1992, P. 259) apud HAY, afirma que existe a abordagem “objetiva/comparativa” geralmente com base num questionário ou, pelos, numa entrevista extremamente estruturada, em que o entrevistador mantém o controle e faz uma série de perguntas comuns a todos os respondentes, e estes têm que se ajustarem dentro de um esquema predeterminado dos entrevistadores e, desse modo, grandes áreas importantes jamais são estudadas, diante dos conteúdos obtidos.

Segundo ainda o autor, por outro lado, está o diálogo que flui livremente entre o entrevistador e o narrador, sem nenhum padrão fixo, e afirma que o entrevistador deve ter o cuidado para que isso não ocorra, pois irá gerar fatos sem importância para a pesquisa, além de quilômetros de fitas gravadas inutilmente serem sistematizadas.

Por isso, não radicalizamos nas entrevistas livres. É importante que fique bem claro, que, ao procedermos algumas intervenções, não foi no sentido de alterar os discursos, mas, no sentido de estimular aquilo que estaria sendo narrado.

Fundamentando o que dissemos, SINSON (1997)[4] em seus estudos de pesquisas onde faz uso das fontes orais, afirma:

 

“(...) cabe ao pesquisador, dependendo da problemática da pesquisa, definir que tipo de instrumento se apresenta como o mais adequado para realizar a coleta de dados e se este deverá ser combinado com outros recursos de pesquisa que exploram suportes empíricos diversos (mapas, fotografias, músicas, desenhos, etc.)”.

 

Cabe-nos aqui ressaltar, que cada uma das professoras entrevistadas não é um número a mais, mas, uma história que se distingue pela sua singularidade __ pela sua história de vida.

Para concluir, gostaríamos de dizer que o estudo fez uso de fontes orais, por meio de entrevistas abertas, não-diretivas e gravadas, solicitando às professoras que dessem o relato de sua vida. Para tanto, contamos com o consentimento, espontaneidade e colaboração por parte das professoras, da expressão livre, tanto na narrativa quanto na elaboração, principalmente do seu estilo ao expor, evitando-se o mínimo de intervenções. As dúvidas foram analisadas, e as retomadas realizadas posteriormente.

Enfim, a natureza da narrativa, tem por finalidade transmitir os ensinamentos de uma vida, perpassando por momentos importantes e ou/ dramáticos. O entrevistado entrega sua vida ao entrevistador, e nesta conversa informal o ouvinte se sente como o narrador, assimilando as experiências vividas para poder contá-las novamente, para que ninguém venha esquecer o que já aconteceu. O passado tem que ser reconhecido, pois servirá de exemplo para as gerações futuras. (WENCESLAU, 1997. p.219)[5].

 

(EM CONSTRUÇÃO)

 

2.6. As Transcrições

 

Outra parte importante e fundamental do nosso trabalho foi com relação às transcrições dos relatos gravados para os textos escritos.

 Fundamentando-nos em THOMPSON (1997,p.297) procuramos observar alguns pontos fundamentais para o desenvolvimento desta técnica, onde o autor considera que:

 “Ao passar a fala para a forma impressa o historiador (pesquisador) precisa, pois, desenvolver uma nova espécie de habilidade literária que permita que seu texto escrito se mantenha tão fiel possível, tanto ao caráter quanto ao significado do original”.

 

E assim fundamenta-se essa proposta de trabalho, visando contribuir com a construção de novos conhecimentos.

 

 

José Márcio Miranda Minervini é mestrando da Universidade Federal de Mato Grosso na Linha de Pesquisa de Educação e Meio Ambiente./ Bolsista CNPQ/www.jmminervini@bol.com.br

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

 

ALBERTI, Verena. História Oral: A Experiência do CPDOC. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1990.

BOSI, Ecléia. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. São Paulo: Ed. Queiroz, 1995.

BUENO, S. Mini Dicionário da Língua Portuguesa. 6ª ed. São Paulo: Ed. Contexto, 1992.

FONSECA, Selva Guimarães. Ser Professor no Brasil.São Paulo: Ed. Papirus, 1997.

GARCIA, Regina Leite (Org). Método: Pesquisa Com o Cotidiano. Rio de Janeiro: Ed. DP&A, 2003.

LÜDKE, Menga & ANDRÉ, Marli. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas. São Paulo: EPU, 1995.

MEIHY, José Carlos S. B. Manual da História Oral. São Paulo: Ed. Loyola, 1996.

_____________ (Org). (Re) introduzindo História Oral no Brasil. São Paulo: USP, 1996.

MINAYO, Maria Célia de Souza. Pesquisa Social: Teoria, Método e Criatividade. 22 ed. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 2003.

MONTENEGRO, Antonio Torres. História Oral e Memória __ a Cultura popular revisitada. 3ª ed. São Paulo: Ed. Contexto, 1994.

THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: História Oral. Trad. Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1992.

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] MEIHY, J. C. S. B. (Re) introduzindo historia Oral no Brasil. São Paulo: USP, 1996.

[2] Ibdem.

[3] Ibdem

[4] MEIHY, J. C. S.B. (Re) introduzindo História Oral no Brasil. São Paulo: USP, 1997.

[5] Ibdem.