O principio que rege o poder é irracional.

ROCKENBACH, Josete [1]

 

A leitura dos textos de Hannah Arendt nos leva a refletir sobre os princípios que regem o poder.   A  perspectiva da irracionalidade  defendida por esse trabalho,  esta visando “o principio” que faz agir  os lideres  que usam da força e violência para se manterem nas instituições políticas e  do outro lado as pessoas que aceitam essa   situação e não se percebem e não percebem as barbaridades a sua volta, como se tornaram seres automáticos.  A realidade e a razão humana se divorciaram e diante disso perderam  a capacidade diferenciação das ações e tudo passa a  ser indiferente ao que é  humano, e  vale dizer:  cada um por si e Deus por todos. 

Para  defender este quadro exposto, investigamos  na obra de Arendt qual  é o principio,  “a convicção básica que um grupo de homens compartilha entre si, e[como] essas convicções básicas  desempenham um papel no andamento do agir político[2]. Para esclarecer o que é esse principio, ou a  essência das estruturas políticas, a autora menciona Montesquieu com sua obra Espírito das Leis, o qual  ressalta a importância dos princípios na organização política.  Compreendido  o que é um princípio  e como ele determina a ação, Arendt diz que são vários os princípios e que vão alem dos três apresentados por Montesquieu. Diante  disso procuramos  esclarecer como é a ação do homem que tem na sobrevivência  o único elemento que o faz agir,  e em seguida caracterizar o que é a convivência, o agir em comum acordo e consciente no mundo.  Esses  aspectos  se  apresentam de forma sutil nos textos de   Arendt, e sugerem dois princípios o da sobrevivência e da convivência, para  compreender o que é a política.

Em  seguida  distinguimos o que Arendt define como Poder   e  o que nos apresenta no século XX,  mais particularmente na obra Da Violência.  Considerando  os aspectos da sobrevivência e da convivência,  para daí discutir sobre a irracionalidade do principio que rege o poder conforme o quadro que  apresentaremos   e o que é irracional para a autora.

 

 

 

 

PRINCÍPIOS

 

Esclarecer o “Principio” das estruturas de governo é compreender como o poder se estabelece e se mantém na relação de governante e governado.  Principio em termos gerais é o ponto de partida do ser, devir ou do conhecer. 

Para Montesquieu o princípio na estrutura do governo “é o que o faz agir[3]¹. Toda a ação tem um princípio que faz o homem agir desta ou daquela maneira. Quando Arendt cita princípios quer dizer “é a convicção básica que um grupo de homens compartilha entre si, e essas convicções básicas que desempenham um papel no andamento do agir político nos foram transmitidas em grande numero, embora Montesquieu só conheça três delas[4]

A virtude, a honra e o medo são os princípios apresentados por Montesquieu para a republica , monarquia e a tirania respectivamente.  A  virtude em um estado popular se refere, segundo autor, a força  das leis “onde quem manda executar as leis sente que ele próprio a elas está submetido e que delas sofrerá o peso[5],portanto todos estão sujeitos as leis, tanto os que ordenam como os que obedecem.  A honra é o princípio da monarquia, o que afeta o individuo é o que afeta a constituição (a estrutura que não  são as leis) do Estado. Quando o individuo  é ofendido,  esta ofensa, é o fundamento das suas reações.  Quando a honra do sujeito é a força que sustenta o Estado Monárquico a história demonstra que “a ambição na sociedade, a baixeza no orgulho, o desejo de enriquecer sem trabalhar, a lisonja, a traição, a perfídia (...) o desprezo pelos deveres de cidadão (...) o perpétuo ridículo lançado sobre a virtude, (...) o caráter da maioria dos cortesãos, (...)[6].   Portanto o princípio da honra na monarquia caracteriza-se pela ambição individual e com o desrespeito aos deveres como cidadão e fundamenta a primazia do individuo diante da comunidade onde ser virtuoso é ser ridicularizado (não é a mola propulsora deste Estado embora se encontre algum homem honesto).  O medo, no Estado Despótico é necessário, a honra perigosa e a virtude desnecessária. Aqui o déspota manda, o outro obedece. A crueldade é a característica deste Estado, o que não está de acordo com as vontades do déspota é destruído, e surge o medo.”O quinhão dos homens, tal como o dos animais, é o instinto, a obediência e o castigo[7].   No despotismo cabe aos homens do Estado obedecer e ser castigado pelo déspota, e como os animais o que prevalece é a sobrevivência.

Hannah Arendt acrescenta aos princípios de Montesquieu, uma quarta forma de Estado, o Totalitário cujo princípio de ação  é a ideologia e o terror na sua essência. “O terror manterá o movimento em constante atividade”. É  considerado  um governo totalitário, aquele onde a conduta dos súditos se ajuste a função de carrasco e vitima, e isso se dá através de uma preparação bilateral. O  principio da ação é a ideologia  daforça coercitiva  da lógica: emana do nosso pavor à contradição[8]: o que faz caracterizar este movimento é a tirania da lógica, pois impende-a de começar algo novo, a liberdade de pensamento fica comprometida, e “a submissão da mente à lógica como processo sem fim , no qual o homem se baseia para elaborar os seus pensamentos[9] .  O terror impede novos começos, ou seja a liberdade a espontaneidade, e a “força autocoercitiva da lógica é mobilizada para que ninguém jamais comece a pensar[10] ,  esta lógica totalitária promove a destruição da capacidade humana de pensar e sentir, assim como a capacidade de  agir e de pertencer ao mundo.

Diz Arendt em Origens do totalitarismo “o que sempre faltou à definição de governo é o que Montesquieu chamou de principio de ação que sendo diferente para cada forma de governo, inspiraria governantes e cidadãos em sua atividade publica e serviria de critério, alem da avaliação meramente negativa da legalidade, para julgar todos os atos no terreno das coisas publicas[11].  Se um principio é o que faz agir proponho refletir a partir do que seria um princípio da sobrevivência e  um principio da convivência em Hannah Arendt.

 

 

SOBREVIVÊNCIA

 

O termo sobrevivência chama a atenção nos escritos de Hanna Arendt, elemento condicionante  das atividades do “homem”.   Este homem quando visto no singular visualiza somente a manutenção da vida, onde “a força do próprio processo vital determina a conduta humana desembocando na sobrevivência da espécie animal humano[12]    

É difícil falar em sobrevivência da espécie humana, porque ela está intimamente ligada à concepção desse Estado, pois esse se edifica para a manutenção da vida, diga-se dele provém a segurança, e as necessidades vitais serão garantidas.  Inverter o foco do Estado como garantidor de sobrevivência, para a sobrevivência como garantia da estrutura do Estado, é mudar o principio de ação dos homens em relação a sua forma de organização.

Sobreviver é continuar a viver, a vida é pressuposto essencial, ou seja, atender as necessidades vitais do animal, pois somente os animais têm estas características de lutar pela sua sobrevivência. Os animais dispõem de instintos que lhe determinam a sua conduta e são pouco modificáveis, para garantir a sua sobrevivência e da qual depende a sobrevivência da espécie.

A necessidade vital no homem leva-o a cuidar-se de si e a se conservar como todos os outros animais. Mas a possibilidade de se condicionar a estes elementos também é parte da natureza humana.

A conduta humana tem no presente o único elemento que o faz agir “a sobrevivência”,  ação e reação imediata (falta-lhe liberdade), na atividade é só o presente,  somente o fato em si é considerado e o que prevalece é estar vivo, é a ação onde o futuro e passado não interferem na reação perante o que se passa. 

Não se pode dizer que isto é bom ou mau, pois não há possibilidade de escolha, a sobrevivência  rege, ordena, é  o elemento propulsor da conduta humana que privilegia a “vida”. A vida   como um bem supremo, é  mencionada por Arendt na  obra A Condição Humana,  com a vitória do animal laborans , “o labor veio a ser precisamente aquela atividade a ser promovida a mais alta posição entre as capacidades do homem: (...) na diversidade da condição humana, com suas varias capacidades humanas, foi precisamente a vida que invalidou todas as outras considerações[13] . O  fato é   que a vida é o bem supremo na era moderna. Há insistência na vida egoísta do individuo, uma vida individual.    

O individualismo que o animal homem apresenta nas suas ações, o coloca em isolamento, apesar de estar próximo dos outros, pois o receio  de ser eliminado o deixa em estado de alerta, nesta eterna competição pela vida.  Arendt fala do isolamento na obra origens do totalitarismo “o terror só pode reinar absolutamente sobre homens que se isolam uns contra os outros e que, portanto, uma das preocupações fundamentais de todo governo tirânico é provocar esse isolamento. (...) o isolamento é , por assim dizer, pré-totalitario; sua característica é a impotência, na medida em que a força sempre surge quando os homens trabalham  em conjunto. Os homens isolados são impotentes por definição[14].   O  isolamento é político e decorre daí a impotência do homem.

Há outra característica que é notadamente expressa por Arendt, além do isolamento, é a solidão a perda do eu, (digamos da sua existência) e a perda do mundo.  Isolamento e solidão nas Origens do Totalitarismo  não são  a mesma coisa ”posso estar isolado- isto é , numa situação em que não posso agir porque não há ninguém para agir comigo – sem que esteja solitário; e posso estar solitário – Isto é, numa situação em que, como pessoa, me sinto completamente abandonado por toda companhia humana – sem estar isolado[15] .

 Estar   isolado é  estar privado  da capacidade de   agir,  é outra citação feita em A Condição Humana, reforçando a questão de que o isolamento torna impotente o homem e sua capacidade de agir, mas, ficam intactas as atividades produtivas do homem, e os principais valores são ditados pelo trabalho, o esforço que permanece é o de manter-se vivo,  a vida como  um bem supremo, e o homem é tratado como um animal laborans, e quando isso acontece é que o isolamento se torna solidão.  Uma das   características do animal laborans, mencionadas na obra A Condição  Humana, “O que restava era uma “ força Natural”, a força do próprio processo vital, ao quais todos os homens e todas as atividades estavam igualmente sujeitos e cujo único objetivo, se é que tinha algum era a sobrevivência da espécie animal humano[16] .   Ao final  da obra a C.H, a autora alerta para o perigo de que o homem pode “estar disposto a tornar-se àquela espécie animal da qual, desde Darwin  presume que descende[17].

A solidão não é estar ´só, diz a autora , a solidão se manifesta mais nitidamente na companhia de outras pessoas. Quando se esta na ausência da companhia dos outros ainda é possível um dialogo do eu consigo mesmo, mas o problema é que esse dois-em-um necessita do outro para ser , e confirmar a identidade, o que  depende dos outros. E o insuportável da solidão é a perda do próprio eu,  da identidade,  e da confiança em seus pensamentos e das coisas do mundo. “o eu e o mundo, a capacidade de pensar e de sentir, perdem-se ao mesmo tempo” ... “ a única capacidade do espírito humano que não precisa do eu nem dos outros nem do mundo para funcionar sem medo de errar, e que independe tanto da experiência como do pensamento, é a capacidade do raciocínio lógico”.

O colapso moral, que Hanna Arendt ressalta no julgamento de Eichmann, é resultado de que quando a sobrevivência está no principio da ação não temos mais moral (pois não há escolhas), mas formas automatizadas de proceder ou condutas pré-determinadas que atinjam seu fim que é a vida individualizada. Quando se fala em sobrevivência, os padrões morais e códigos de honra tornam-se fontes geradoras do poder, pois são o que determinam a conduta dos indivíduos e podem a bel prazer ser alteradas para atender aos propósitos do “poder materializado”,  que são as formas instituídas de governo.  As teorias do behaviorismo podem ser as melhores conceituações para a moderna sociedade, diz Arendt, se olharmos sobre este aspecto onde se privilegia a vida individualizada do animal homem.

Estas reflexões sobre a questão da sobrevivência, que determina o querer a vida (com o objetivo único a qualquer custo) pode nos esclarecer as condutas de pessoas que sobrevivem neste mundo atomizado e individualizante, para tentar compreender o principio que propicia formas de governo que vem acompanhado de corrupção, violência, ambição desmedida.  O que move o homem é a convicção ou o principio de que manter-se vivo, é obter o bem supremo – a vida. Neste  contexto  a vida em comum é desvalorizada

 

 

CONVIVÊNCIA

 

A convivência para Hanna Arendt “é quando as pessoas estão com outras pessoas, ocorre o gozo da convivência”[18]. E se realiza no convívio com diferentes na pluralidade e o “quem é” esse outro se revela na ação e no discurso.

Estar com outras pessoas, conviver não é ser “pró” ou “contra”,  Arendt exemplifica esta condição com o praticante de boas ações e o criminoso, respectivamente, mas que são pessoas solitárias, pois se mantém no anonimato, ”são figuras marginais, em geral surgem no cenário histórico em época de corrupção, desintegração e decadência política”[19]. O homem quando tratado na sua formula geral nos apresenta como se houvesse apenas um homem, e todo o pensamento cientifico trata do homem como se todos os homens fossem idênticos.  O homem só é homem entre homens. Aqui é importante ressaltar a palavra entre, pois é este termo que faz com que a pluralidade seja considerada, para compreender o que é convivência.

Pois estar entre homens, é o que propicia o desenvolvimento dos homens, e é a ação e o discurso entre os homens que os tornam humanos. E  este estar com outros homens ocorre no “mundo das coisas no qual eles se movem, mundo este que se interpõe entre eles e o qual procedem a seus interesses específicos, objetivos mundanos[20].     Os inter-esses(o que está entre eles), é o que liga e relaciona as pessoas entre si, e isto acontece quando os homens agem e falam diretamente uns com os outros, embora estes elementos agir e falar sejam intangíveis é real, e a esta realidade Arendt denomina como “teia de relações humanas”.

Na ação e na palavra está explícita a coragem, não é aquilo que nos faz arcar com as conseqüências, mas o “próprio ato do homem quando abandonou seu esconderijo para mostrar quem é, para revelar e exibir sua individualidade ·· A ação e o discurso é que caracterizam  a liberdade.

Se há liberdade, a qual para Arendt é ação, as coisas do mundo sofrem de imprevisibilidade que se inicia como resultado da ação no momento em que termina o ato. A imprevisibilidade do resultado está  em íntima relação com o que é revelado, da ação e do discurso, e  é o que propicia ao agente o  desconhecimento de si mesmo ou “de quem” revela.

Falamos que convivência: 1- não é  “pró” ou “contra” o outro;  2- Não ocorre no isolamento, pois é na  ação e discurso que revela quem é “o alguém”, esse alguém pode ser o outro e o próprio agente;  3- O homem é homem entre os homens, pois só aí é possível à revelação das diferenças que nos é dada pela natalidade, ação , e pelo discurso, a palavra; 4-A liberdade é ação, e a ação se caracteriza pela imprevisibilidade, não se sabe o que vai ser , a certeza se desvanece.

O que se revela na ação e no discurso  é a pluralidade, homens que  são iguais na diferença.   Homens diferentes podem viver juntos e valorizar o outro, pois o mundo das coisas que se revela ao homem, é o que os relaciona e o mundo que aparece, são as  aparências reveladoras das diferenças que é comum a todos os homens e é isso que os torna iguais.  Desta forma, e a mentalidade alargada é o que possibilita o convívio na pluralidade, o estar com os outros no mundo das coisas, os relaciona, promovendo uma teia de relações humanas, nesta perspectiva podemos dizer que há um senso comum, um juízo comum a todos, um juízo político.  É importante na obra da autora o juízo político, pois  Arendt quando utiliza o termo “mentalidade alargada” recorre a Kant, na obra “A Critica da Faculdade do Juízo”  e diz que  é uma “comparação dos nossos juízos com outros juízos não tanto efetivos mas antes possíveis, e por nos colocarmos no lugar de qualquer outro Homem”[21], isso ocorre devida a capacidade de imaginação na qual quem formula o juízo se encontra com “todos ou outros”( não está isolado, mas alerta que isto não é empatia).

Como é possível a convivência na pluralidade? Se considerarmos  a mentalidade alargada e que,  existe no mundo das coisas e na teia das relações humanas, um senso comum  um juízo que é comum a todos,  e que é diferente ao senso privado que segue ao raciocínio lógico e diante de uma premissa  determina o que é certo ou errado. 

O senso comum ou faculdade de julgar e discernir entre bom ou mau  está baseado no sentido do gosto[22] e utiliza os sentidos olfato e paladar que são incomunicáveis (somente o individuo que o caracteriza). Mas é o belo que tem a peculariedade   do senso comum.  Por isso recorre a imaginação comparando o seu juízo com outros juízos. Aqui é que o egoísmo é vencido diz  Arendt. É  o juízo do gosto “é necessário porque sou humano[23] e não posso viver afastado da companhia de outros homens[24],  a  intersubjetividade é o  que é comum a todos subjetivamente e se realiza na companhia dos outros.

É importante ressaltar aqui a questão de que o que afeta o individuo é sentido na sua singularidade, e ai que se julga se é bom ou mal a ação e o discurso revelado pelo agente no mundo que nos aparece, e esse senso comum vai além de si, compara com o outro ou todos para que se possa julgar, aqui o julgar não é um ato racional do homem isolado, é a soma do que lhe afeta o sentido e a razão, que desperta o interesse que se relaciona na companhia dos outros, a emoção (sentimento) e razão (o conhecimento) não são opostos mas complementares para a efetivação do senso comum.

Estar com o outro na pluralidade, evidencia a capacidade do homem de diferenciação, e se é possível perceber as diferenças que aparece revelada no mundo através da ação e discurso, está inserida neste contexto a liberdade.  O homem na pluralidade não está sujeito a uma determinação prévia, há possibilidade de escolha, (o pensar, o querer e o julgar é que vão promover a ação).  A opção por uma ou  outra ação está vinculada a realidade do mundo e nas teias de relações humanas. E a  morte é a realização plena, revelando o ator na sua totalidade, só quando estão mortos que se ilumina os processos da ação. 

O estar com o outro, o “nós” se faz necessário, e  na pluralidade é possível uma sociedade, um conjunto de idéias, que vai além do si mesmo privilegiando o estar junto e é  possível contemplar  o outro nos julgamentos, há liberdade para as escolhas que aparecem em ações e discursos, permitindo uma vida em comum com plena consciência do eu, do outro e do mundo.

A convivência, estar com outras pessoas, é uma atividade que não visa um fim, mas é como “um fim em si mesmo”[25].

 

 

PODER

 

O conceito de poder é fortemente  vinculado as tradições do pensamento político que têm origem na noção de poder absoluto, que surge com o Estado - Nação, diz Arendt na obra da violência, e que coincidem desde a antiguidade “para definir as formas de governo como o domínio do homem sobre o homem[26].

O  século XVIII propõe um fim do “domínio do homem sobre o homem[27], substituindo pela  “obediência a leis e não a homens” com o consentimento dado pelos cidadãos ás normas legais. O poder das instituições de um país é o prolongamento da origem das normas legais.

O povo tem um governo representativo, mas o poder é detido pelo povo sobre os governantes. É importante ressaltar que “as instituições políticas são manifestações e materialização do poder; estratificam-se e deterioram-se logo que o poder vivo do povo cessa de apoiá-los[28].

Essa colocação de Arendt quanto à manifestação e materialização do poder é que vai gerar na ciência política uma falta de distinção na terminologia das palavras chaves que indicam “os meios pelo qual o homem governa o homem[29],  – poder, vigor, força, autoridade e violência são consideradas sinônimos por terem a mesma função, diz a autora e que podem ser esclarecidos quanto ao problema da dominação.

Diante deste quadro Arendt propõe a distinção entre poder, forca, violência, vigor e autoridade. O Poder para a autora “corresponde à habilidade humana enquanto o grupo se mantiver unido[30], e esse agrupamento deve ocorrer voluntariamente.  O “Vigor” é no singular e pertence ao seu caráter, é do individuo,  independente das outras pessoas. A “Força” é a energia liberada através de movimentos físicos e sociais. “Autoridade” é o mais indefinido dos termos, a sua característica é o reconhecimento sem discussões por aqueles que são solicitados a obedecer, nem a coerção e nem a persuasão são necessários. A “Violência” se caracteriza pela utilização de  instrumental, e esta próxima do vigor[31]

Após este  esclarecimento comenta que apesar das distinções  não serem arbitrarias “dificilmente correspondem ao mundo real[32] o que é mais comum é a combinação da violência ao poder. 

Se o governo é poder institucionalizado, pergunta Arendt “qual a finalidade do governo[33] a resposta será insatisfatória , porque para ela o Poder não tem justificativas mas legitimidade.  A legitimidade do Poder acontece no “Espaço da Aparência, precede a toda e qualquer constituição formal na esfera publica(...) o  Poder passa a existir entre homens quando eles agem juntos, e desaparece no instante em que eles se dispersam[34].

O que é indispensável para a legitimação do Poder, o “único fator material é a convivência entre os homens”.   O  fato de permanecerem unidas é que mantém vivo o Poder, a  potencialidade do Poder, só é presente quando as pessoas agem, e estão próximas umas das outras. Compreender estes argumentos é fundamental para se dizer que o Poder é um potencial de Poder nunca inteiramente materializado, como  diz Arendt. O Poder não é materializado é um espaço vazio, parte de que a ação e o discurso das pessoas no mundo das coisas em suas teias de relações os unem e potencializam este poder da ação e do discurso, os quais são intangíveis, porém reais.

 Quando o que se diz sobre  o poder é a visão herdada do século XVIII,  como o domínio do homem pelo homem, e materializado nas instituições políticas, identificamos um poder que tem  como principio a manutenção das necessidades vitais e segurança, que é a sobrevivência, a qual promove o isolamento e a solidão. 

 

 

CONCLUSAO

 

É possível acompanhar o impasse frente ao poder que se apresenta no mundo com relação aos acontecimentos avaliados  na obra Da Violência,  na qual discute as ações dos homens no século XX diante dos fatos relatados e que apresentamos no inicio deste trabalho e considerando que a realidade e a razão humana se divorciaram, o que  poder-se-ia considerar racional ou irracional, isso  é resolvido quando Arendt  diz que a “irracionalidade é a fuga da realidade[35].  Fugir da realidade esta relacionado com o se isolar dos outros, renunciar ao Poder, perder o seu eu e o mundo das coisas.

A ação e o discurso acontecem no gozo da convivência, e a comunicabilidade e sociabilidade inerente ao homem no mundo das aparências revelam o homem com suas propriedades e  é no convívio que a  realidade  e o espírito se reconciliam. Mas, quando o homem   se isola e fica solitário devido a sua convicção em manter-se vivo,  é uma fuga da realidade, e para Arendt é o que caracteriza a irracionalidade do animal homem, perde-se as propriedades que revelam o homem enquanto homem entre homens, passa a ser um animal laborans, para o qual “nenhuma das capacidades superiores do homem era agora necessária para relacionar a vida individual à vida da espécie; a vida individual tornara-se parte do processo vital, e a única coisa necessária era laborar, isto é, garantir a continuidade da vida de cada um e da sua família[36] .

.  “O principio” que rege o Poder é irracional quando o animal homem  foge da realidade.  E isso ocorre quando  sobreviver, ou seja, manter-se vivo, é a convicção ou  o  principio que rege o poder materializado[37], porque ao se isolar politicamente e em conseqüência viver na solidão enquanto aspecto social, vai caracterizar a convicção no agir político do homem,  a irracionalidade, ou seja a  fuga da realidade. 

 

 

 

 

 

REFERENCIAS

 

  1. bibliografia especifica da fonte do problema

 

 

ARENDT, Hannah.  Entre o passado e futuro. Trad. Mauro W. Barbosa. São Paulo : Perspectiva, 2005 (Debates ; 64  / dirigida por J. Guinsburg).

 

ARENDT, Hannah. A  condição humana.  Trad. de Roberto Raposo; posfácio de Celso Lafer. 10ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,2004.

 

ARENDT,Hannah. Da  violência. Trad. de Maria Claudia Drummond Trindade. Brasília: Editora Universitária de Brasília, 1985, c1970.

 

ARENDT, Hannah. O  que é política. Trad. de Reinaldo Guarany. 2ª ed. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil, 1999. 240p.

 

ARENDT, Hannah. Origens  do totalitarismo.  Trad. Roberto Raposo. São Paulo : Companhia das Letras, 1989.

 

ARENDT, Hannah. A vida do espírito, volume I – pensar. Trad. João c.s. Duarte. Lisboa: Instituo Piaget,1999.

 

ARENDT, Hannah. A vida do espírito, volume II – querer. Trad. João c.s. Duarte. Lisboa: Instituo Piaget,2000.

 

ARENDT, Hannah. O conceito de amor em Santo Agostinho. Trad. André  Duarte de Macedo. Rio de Janeiro: Relume-Dumara,1993.

 

ARENDT, Hannah. Lições sobre a filosofia política de Kant. Trad. João c.s. Duarte. Lisboa: Instituo Piaget,1999.

 

ARENDT, Hannah. A dignidade da política. Trad. Helena Martins, Frida Coelho, Antonio Abranches, César Almeida, Claudia Druker e Fernando Rodrigues. 3ª edição. Rio de Janeiro: Relume-Dumara,2002.

 

 

 

Comentadores:

 

 

AGUIAR, Odílio Alves e outros.  Origens do totalitarismo: 50 anos depois. Rio de Janeiro: Relume-Dumara; Fortaleza,CE: Secretaria da Cultura e Desporto, 2001.

 

CORREA, Adriano. Hannah Arendt entre a filosofia e a política,transpondo o abismo. Coordenador Adriano Correa. Rio de Janeiro : Forense Universitária, 2002.

 

 



[1] Josete Rockenbach é acadêmica do 4º ano do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT e integrante do grupo de pesquisa Ética e Política desta instituição.   e-mail:  joseterock@hotmail.com

[2] P.128 o que é politica

[3] [3] (p.41) Espírito [3]das leis, ed.1985

[4] P.128 o que é política

[5] ( p p.41) espírito [5]das leis, ed.1985

[6] (p.41) Espírito [6]das leis, ed.1985

[7] .(p.46) idem

[8] (p.525 Origem do totalitarismo de Arendt).

[9] (p.525  Origem do totalitarismo de Arendt).

[10] (p.526 Origem do totalitarismo de Arend)

[11] (p.519 Origem do totalitarismo de Arend)

[12] (Condiçao Humana  2004-p334).

[13] Idem,p.326

[14] (OT, p. 526)

[15] (OT, p. 527)

[16] (CH, p.334).

[17] (CH, p.336).

 

[18] (p.192 CH)

[19]p 193, CH)

[20](p.195 CH)

[21](V.E – Querer,p 255), 

[22](262 VEQ)

[23] o senso comum  e´possivel entre homens que agem e falam, e é isso que da a característica mais elevada do ser humano a possibilidade de comunicar os seus juízos. Na obra a vida do espírito- pensar , diz Arendt “temos estado a olhar para as características mais salientes da atividade de pensar: seu alheamento do mundo das aparências do senso comum, a sua tendência auto-destrutiva em relação aos seus próprios resultados, a sua reflexividade, e a consciência da pura atividade que a acompanha, mais o estranho fato que tenho conhecimento das faculdades do meu espírito apenas enquanto a atividade dura, o que significa que o próprio pensar nunca pode ser solidamente estabelecido como a única ou mesmo a mais alta propriedade da espécie humana – o homem pode ser defenido como < o animal falante> no sentido aristotélico de logon echon,  de posse da fala, mas não como o animal pensante, o animal rationale.” (p.101)

[24] (VEQ, 264)

[25](p.218 CH). 

[26] (DV, p.20).

[27] (Da Violencia,  p. 22)

[28] (da violência,p.22)

[29] (da violência, p. 23)

[30] (da violência,p 24).

[31](Da Violência,p.25).

[32](da violência,p.25) 

[33]((da violência,.p.28) 

[34] (p.212 C H).

[35] (p.36 Da Violência).

[36] (CH, p335)

[37] Estado e o governo  sua característica  privilegia somente o Poder  materializado, na pessoa  (o vigor)  ou na forma  instituída de governante e governados unido a violência que é uma razão instrumental.