O TRABALHO DO PROFESSOR: PRIMEIRAS APROXIMAÇÕES

NOGUEIRA[1]

 

1 Introdução/justificativa

            Este texto é parte de um estudo preliminar, com vistas a fazer as primeiras aproximações de nossa pesquisa de doutorado que envolverá o tema da prática do professor de educação infantil. É constituído de leituras e discussões realizadas na disciplina Temáticas Contemporâneas Educacionais da Linha de Pesquisa Educação e Trabalho I e dos estudos no GEFPP (Grupo de Estudo Formação e Prática do Professor) do programa de Pós-Graduação em Educação da UFMS.

O texto traz uma reflexão sobre o trabalho do professor, a constituição de sua identidade no contexto de vida e de trabalho. Assim, apresenta duas tomadas de decisões fundamentais no exercício da profissão: a primeira dá-se quando o professor não se preocupa em fazer a repetição dos costumes, hábitos e das atitudes que contribuem com os interesses do capital; e a segunda, quando o professor busca a aproximação entre educação e trabalho e produz um ensino voltado para a aliança entre teoria e prática, entre concepção e execução, preocupando-se com a formação integral de todas as crianças, jovens e adultos com quem trabalha.

 

2 Objetivos:

- Realizar aprofundamentos teóricos a cerca do trabalho do professor;

- Analisar a relação entre educação e trabalho no interior da atividade docente;

 

3. Metodologia

            A produção deste texto origina-se de um estudo bibliográfico e traz reflexões fundamentadas nos trabalhos produzidos por Catto (2002), Contreiras (2002), Frigotto et al (1998), Gramsci (1988), Lerena (1991), Marx (1982), Nogueira (1998), Osório (2003), Tardif e Lessard (2005) e em nossa experiência como professora do ensino superior que trabalha com a prática de ensino na educação infantil, em contato direto com creches e pré-escolas.

            O conceito de educação e trabalho está definido a partir da perspectiva teórica marxista. Assim, o homem é compreendido no processo de trabalho, como produto e produtor da história social.

No desenvolvimento do texto tratamos das relações trabalho-educação e escola-trabalho e abordamos acerca da profissão e da prática do professor de forma geral. Concluímos que apesar da força da sociedade capitalista, o docente realiza uma atividade que o possibilita a tecer aproximações entre educação e trabalho, como forma de compreender a atuar na sociedade. Com isso, sua prática educativa pode ser posicionada contra os pré-conceitos, a violência, a competição, o individualismo etc.

 

4 Resultado parciais/discussões

4.1 Trabalho e educação

            Para Marx (1982), o homem se constitui no processo de trabalho do passado remoto e do presente, nesse processo produziu (e produz) a sociedade e a si mesmo.

Conforme Frigotto (1998, p.28), na tradição marxista, a categoria trabalho é compreendida em mediações de primeira e segunda ordem. A mediação de primeira ordem coloca o trabalho como categoria central, pois é considerado como um antecedente necessário para o entendimento do homem e da sociedade. Nessa primeira ordem ou momento, o homem constituiu sua essência dentro do processo histórico de trabalho, atendendo às necessidades de sobrevivência. Na mediação de segunda ordem, o trabalho criador é transformado em alienação, mercadoria, força de trabalho. Portanto, a mediação de primeira ordem é imperativa da espécie humana e na mediação de segunda ordem o trabalho é redefinido pela necessidade do capital, em outras palavras, ele passa a ser realizado em função das prioridades do capital.

            Para Marx (apud Lerena, 1991, p.121) o trabalho é a chave da compreensão da realidade. Porque o homem, em sua prática, durante a realização da atividade do trabalho, composta da referida mediação de segunda ordem, realiza trabalho hoje, modifica a sociedade e a si próprio.

            Para definir a atividade é importante a leitura em Catto (2002). Essa autora explica que para Vygotsky e Leontiev, com base em Marx e Engels, a atividade humana é entendida como mediadora da relação entre o homem e a natureza. A partir daí, o homem vai criando novas atividades em função de novas necessidades. Compreendemos que, no caso do professor dos diferentes níveis de ensino, ele realiza a atividade do trabalho, produzindo um tipo de ensino, uma forma de cuidar do outro. Com isso realiza uma concepção de educação e produz sua formação psicológica, sua identidade, sua maneira de entender a si próprio. Essas produções, nascidas a partir das contradições sociais, estão diretamente relacionadas - uma interferindo e modificando a outra.

            Marx (apud Lerena, op.cit), a partir da concepção de homem constituído na atividade laborativa, compreende que a escola não pode estar separada do mundo do trabalho. Porém, as crianças devem ser educadas a partir do princípio do trabalho e não concorda com a exploração de crianças e com a violência contra a infância.

            Diante dessa concepção, podemos pensar que o professor, ao realizar o trabalho de educar crianças, jovens e adultos, constitui sua identidade e pode contribuir com a produção da escola e da instituição de educação infantil que objetiva vencer os empreendimentos que pretendem romper com a relação teoria e prática. Assim, o professor e a professora podem aproveitar desse fundamento para tentar fazer os vínculos entre trabalho e educação. Mas questionamos, como fazer isso? Uma educação fundada nos princípios capitalistas não tem relação com o trabalho de modelo capitalista? Estamos vendo só o aspecto positivo[2] do trabalho? Talvez, nesse texto, consigamos tratar de alguns aspectos que possam ajudar a pensar sobre o tipo de relação entre educação e trabalho no interior do trabalho do professor.

            Para focalizarmos o trabalho do professor precisamos ter dois elementos de análise. O primeiro acontece no aqui e agora, é o trabalho no modo de produção capitalista, que busca transformar o homem em objeto, em mercadoria, passível de extração da mais valia (Cf. CATTO, op.cit, p.52).

Nesse sentido, de acordo com Osório (2003, p.208) o professor é submetido a uma longa jornada de trabalho; sofre com os salários baixos para ensinar um número excessivo de crianças. Além disso, realiza um trabalho cada vez mais dividido entre concepção e execução. Essa divisão é produzida a partir da criação de mecanismos sofisticados impostos por órgãos gestores para que ele se torne um prático, quando o corpus teórico, que poderia fundamentar a prática, vai sendo distanciado.

            O segundo elemento é contar com a possibilidade de reversão dessa realidade, quando a educação e o ato de ensinar objetivam superar a separação entre teoria e prática, entre educação e trabalho – entendido como tomada de posição do lado do trabalho em oposição aos interesses do capital. Porém, a busca de realização desse objetivo vai depender da tomada de decisão do professor e de sua formação profissional, que vão provocar a construção de uma trajetória que pode levá-lo mais próximo da necessidade do capital ou mais próximo da aliança entre trabalho e educação.

            Assim, parece que o trabalho do professor acontece em meio a essa contradição e, conforme a ação de ensinar, contribui na produção de um tipo de educação e um tipo de relação entre educação e trabalho. Porém neste texto, colocamos a aproximação entre educação e trabalho como busca de rompimento com o trabalho visto apenas como satisfação das necessidades do capital. Portanto, o trabalho como necessidade humana e a educação como instrumento de desenvolvimento do homem.

 

4. 1.1 A relação entre trabalho e escola

            Recorremos a Gramsci (1988) para analisar alguns nexos entre escola e trabalho e refletirmos sobre o trabalho do professor. A discussão desse autor tem base teórica em Marx. A escola de Gramsci propõe desenvolver a disciplina, o estudo das ciências, letras e das artes. Para nós a preocupação com esse desenvolvimento é a atividade do professor e da professora. Nessa perspectiva, a prática desse profissional deve estar pautada em conteúdo vivo, para promover o entendimento e compreensão do trabalho na realidade e sobre o trabalho na história e na filosofia.

A escola de Gramsci (op.cit) é a escola do trabalho, constituída no processo de trabalho e local onde este se realiza. Não é igual à industria, mas tem relação com ela, na medida que busca compreender esse mundo. Está voltada para o trabalho intelectual, para ajudar as crianças e os jovens a compreenderem a organização produtiva no contexto histórico e político. Os trabalhadores, em geral, também devem participar desse conhecimento e, na industria, tornam-se mais entendedores de seu fazer.

A organização prática da escola unitária, é o que diz respeito à carreira escolar em seus níveis, de acordo com a idade e com o desenvolvimento intelectual-moral dos alunos e com os fins que a própria escola pretende alcançar. A escola unitária ou de formação humanista (entendido este termo, em sentido amplo e não apenas em sentido tradicional) ou de cultura geral deveria se propor a tarefa de inserir os jovens na atividade social, depois de tê-los levado a um certo grau de maturidade e capacidade, à criação intelectual e prática e a uma certa autonomia na orientação e na iniciativa (GRAMSCI, op.cit, p.121).

            Portanto, a relação entre escola e trabalho é o que assegura o vínculo entre teoria e prática. A escola unitária propõe uma nova relação entre trabalho intelectual e industrial em toda a vida social.

4.2 O professor e seu trabalho

            A partir das reflexões e práticas educativas apresentadas por Contreiras (2002) Nogueira (1998), Osório (2003) e Tardif e Lessard (2005) podemos dizer que o professor realiza o trabalho de ensinar. Mas, o ensino está envolvido em um mundo de contradições, entre elas podemos relacionar, por um lado, está submetido à exploração de sua força de trabalho, ao controle e pode ser relegado a um executor de atividades planejadas por outros e, de outro lado, quer educar conforme sua concepção de educação, quer ter uma certa autonomia de trabalho, quer ser respeitado e reconhecido como um profissional, quer ser melhor remunerado. Além disso existem várias propostas de educação em curso, que são a ele apresentadas por gestores educacionais, órgãos governamentais, instituições universitárias. Diante desses desejos, condições de trabalho, propostas e imposições colocadas ele precisa tomar decisões.

            Para se posicionar frente a esses dilemas, o professor precisa se constituir como profissional, engajar-se no grupo socialmente reconhecido como de profissão. Porque uma profissão não se faz sozinho, deve estar fortalecida enquanto categoria. Conforme Tardif e Lessard (op.cit, p.27):

Uma profissão, não é outra coisa senão um grupo de trabalhadores que conseguiu controlar (mais ou menos completamente, mas nunca totalmente) seu próprio campo de trabalho e o acesso a ele através de uma formação superior, e que possui uma certa autoridade sobre a execução de suas tarefas e os conhecimentos necessários à sua realização.

 

            Diante da necessidade de profissionalização, todo professor deve se preocupar com sua formação inicial e continuada, participar junto à sua categoria nos eventos científicos, políticos e sindicais. Precisa ‘cavar’ a cada dia a autonomia do exercício do trabalho, estar atento, se posicionar frente aos vínculos entre educação e trabalho ou interesses do capital para exercer a atividade educacional.

            A partir das reflexões de Tardif e Lessard (op.cit) podemos dizer que o professor, nos diferentes níveis de ensino, não apenas executa tarefas, porque apesar das imposições ele cria soluções, procura ensinar a ler a escrever a calcular conforme seus entendimentos. Porém, sua concepção de educação, de ensino, de criança, de homem e de sociedade foram elaboradas dentro das situações de formação, trabalho e de vida, as quais o constituem enquanto professor.

            Para Tardif e Lessard (op.cit) as práticas cotidianas reproduzem as variáveis do sistema ao qual está submetido, mas introduzem alguns deslocamentos, conflitos, tensões desorientações e contradições, que, às vezes, com o passar do tempo, acabam por produzir algo diferente daquilo que era imposto pelo sistema. Diante disso, os referidos autores afirmam que

(...) os professores são também atores que investem em seu local de trabalho, que pensam, dão sentido e significado aos seus atos, e vivenciam sua função como uma experiência pessoal, construindo conhecimentos e uma cultura própria da profissão. (TARDIF e LESSARD, op.cit., p.38).

 

            Assim, o trabalho docente na educação infantil e em outros níveis não se resume em cumprir e executar, mas, também em dar novos sentidos, pois é realizado em um lugar onde é preciso existir formas de diálogo com os outros que estão envolvidos no processo de trabalho, precisa, em certa medida, negociar com crianças, jovens, familiares, colegas de trabalho e representantes de órgãos gestores educacionais. Parece que, entre os grandes extremos capital e trabalho, ele inventa novas situações, às vezes controláveis, produzindo respostas surpreendentes, talvez inovadoras ou revolucionárias, talvez reprodutivas.

 

4.2.1 A escola local de trabalho

De acordo com Tardif e Lessard (op.cit, p.46) a escola é uma organização social onde o trabalho do professor é desenvolvido. Não está fechada em si mesma, porque participa do contexto social-político e econômico na qual está inserida. Assim, os seus membros participam de eventos internos e externos, entrando e saindo de seus limites geográficos. Os professores e os alunos trazem para a escola múltiplas pertenças sociais, tais como origem sócio econômica, culturas diferentes, identidade lingüística e étnica.

Esse contexto faz com que as identidades dos seus agentes, professores, alunos, gestores e outros não sejam definidos unicamente pelos acontecimentos escolares. Isso ocorre porque todos participam de espaços como o sindicato, a igreja, a família, movimentos sociais, partidos políticos, universidades etc. Os professores e alunos que entram e saem da escola, modificam, constantemente, o ritmo escolar, introduzindo formas de resistência, fazendo, muitas vezes, com que a escola perca o controle daqueles que ela forma.

Diante disso, com base em Tardif e Lessard (op.cit), podemos afirmar que a forma taylorista de organização do trabalho se torna relativamente difícil dado o grau de indeterminação presente na escola e nas instituições de educação infantil. Mas apesar disso, são espaços onde acontece, também, o ensino da obediência e da passividade. O professor, em muitos casos, ensina a viver na sociedade atual de forma acrítica, quando as crianças em silêncio, repetem lições e exercícios, em tempo cronometrado, em situação de submissão. A escola dessa maneira colocada exerce a função de adaptação, tendo no professor, muitas vezes, o seu principal agente.

Estas contradições estão presentes, concorrendo uma com a outra, provocando uma tensão entre duas formas de existência da escola, cujos agentes principais são os professores e alunos. Os professores também aprendem com seus alunos formas novas de troca e convívio e vice-versa, imprimindo novas maneiras na relação professor-aluno e na relação ensino-aprendizagem.

            No que se refere ao preparo para o trabalho, a escola pública consegue dar condições para os jovens vindos dos estratos mais pobres da sociedade de participarem, com condições suficientes, para a concorrência e exercício efetivo de trabalho? Parece que a escola pública, em sua maioria, apesar de professores e alunos quererem que ela dê condições de realizá-lo, tem grande dificuldade em conseguir. Porque a maior parte das escolas públicas não investe no entendimento sobre a sociedade, aliado a esse fato, o ensino para a utilização de equipamentos microeletrônicos e a formação para o letramento são insuficientes (Cf. FRIGOTTO, 1998; OSÓRIO, 2003; GOMES e SENA, 2004).

Esses fatos colocam muitos professores com um sentimento de impotência, provocando o desinteresse e o desânimo. Esse tipo de disposição afetiva é fortalecido, principalmente, quando o professor não adotou uma proposta educacional praxiológica (a aproximação entre escola e trabalho), que o faça colocar-se na luta entre capital e trabalho de forma mais consciente, ajudando-o a elaborar, junto aos alunos, uma crítica à sociedade atual, a partir da elaboração de textos, da análise e leituras de veículos portadores de texto mais acessíveis.

            Porém, apesar de a maioria das escolas públicas possuírem equipamentos inadequados e do sentimento de impotência de seus professores, Kuenzer afirma que a sociedade hoje precisa também de criatividade, de certa autonomia, de trabalhadores que transitem bem nos meios informatizados e conheçam a micro-eletrônica. Todavia, para nós, a classe hegemônica (detentora do poder político e econômico) procura resolver a contradição, promovendo diferenças a seu favor em cada escola, ou seja, uma escola para a favela, outra para a aldeia, outra para o centro da cidade, outra privada etc. Assim, pode dispor de vários tipos de formação de trabalhadores.

            Dentro dessas contradições, vivem os professores e as professoras, que quando objetivam formar o homem para além das necessidades do capital, conforme Lima (1996), buscam educar negando a conformação. Para isso, eles e elas precisam de um referencial teórico que os ajude a ver o homem como sujeito da história, aquele que realiza trabalho e nele se modifica.

            Concordamos com Saviani (1991, p.11)

[...] cabe entender a educação como um instrumento de luta. [...] A forma de inserção da educação na luta hegemônica configura dois momentos simultâneos e organicamente articulados entre si: um momento negativo que consiste na crítica da concepção dominante (a ideologia burguesa); e um momento positivo que significa: trabalhar o senso comum de modo a extrair o seu núcleo válido (o bom senso) e dar-lhe expressão elaborada com vistas à formulação de uma concepção de mundo adequada aos interesses populares.

 

4.3 Conclusão

A identidade do professor e da professora está condicionada à realidade da profissão, à formação inicial, ao exercício do trabalho na escola e às situações de vida fora do âmbito escolar. No contexto de sua vivência, historicamente determinada, elaboram o entendimento de si próprios, do outro e, também, suas concepções de educação, de homem e de sociedade, as quais são a base para as decisões diante das situações de trabalho. Decisões essas que dependem das formas de diálogos com outros professores, crianças, jovens, pais e responsáveis.

Dentro da universidade, desde a formação inicial, o professor pode decidir realizar a dura tarefa de evidenciar no trabalho, no interior da sociedade capitalista, algumas negações – a negação do preconceito, da discriminação, do individualismo, da competição, do estudo pouco e fraco. E, dessa forma, ajudar às crianças, jovens e adultos a elaborarem sínteses – conceitos teorizados, compreensão e análise acerca das diferenças, reflexão sobre a relação individual-coletivo, encontrar no trabalho de estudar uma possibilidade de produzir o melhor que o próprio estudante e ele (docente) podem realizar, com o objetivo de proporcionar uma formação integral para os outros e para si.

Porém, o professor tem uma longa jornada de trabalho; recebe remuneração baixa; ensina um número elevado de crianças; tenta exercer sua atividade com uma certa autonomia. Além disso, são criadas formas de controle pela própria organização social preparada para a manutenção e desenvolvimento da sociedade de classes, cujos problemas são evidentes: miséria para muitos, riqueza para outros, educação para elite, educação para pobres. Isso porque é conveniente que o professor seja um prático, e não dê conta de adquirir o conhecimento teórico que o fortaleça enquanto intelectual, enquanto profissional.

O professor muitas vezes é identificado com o trabalhador manual, isso acarreta um entendimento mais forte de não profissionalidade e de não intelectual. De acordo com Gramsci (1988) nem todos os trabalhadores exercem, na sociedade, a função de intelectuais, apesar de o trabalho em geral comportar os dois elementos, envolvendo atividades manuais e intelectuais. O trabalho do professor, em especial, é definido pelo autor como trabalho não manual. Por isso, o professor precisa estar constantemente estudando, para entender a relação entre teoria e prática, entre trabalho manual e intelectual, reconhecer-se como o realizador de uma prática educativa inseparável da reflexão.

Diante disso, pode se dizer que o docente precisa ter conhecimento teórico sobre o desenvolvimento da criança, sobre o significado da educação dentro da escola e da instituição de educação infantil. Esta educação é diferente daquela que acontece na família, uma vez que o trabalho com uma grande quantidade crianças, vindas de famílias diferentes, em meio ao convívio com outros profissionais, requer reflexão sobre a organização do espaço e sobre o projeto pedagógico, exige uma formação profissional específica.

Para finalizar, afirmamos que neste texto buscamos apresentar alguns elementos para entender os nexos entre educação e trabalho. Nessa busca encontramos vários acontecimentos que podem ser relacionados:

a)      na atual sociedade a relação entre educação e trabalho está vinculada ao sentido de reprodução social. Materializada por diferentes formas de controle, exploração da força de trabalho, condições precárias, longas jornadas e discriminação do trabalho considerado como manual;

b)      apesar disso, na escola e na instituição de educação infantil, os professores, as crianças e alunos em geral não são facilmente controlados, existem espaços para a formação humana que são imprevisíveis;

c)      a despeito da força do tipo de sociedade em que vivemos, o professor realiza uma atividade que pode ser posicionada contra os pré-conceitos, a violência, a competição, o individualismo etc. Buscar aproximações entre educação e trabalho, no sentido de um princípio educativo que visa satisfazer as necessidades do homem e de crítica à sociedade atual;

d)      em todos os níveis de ensino, o professor e a professora precisam investir em sua profissão, participando de eventos científicos, sindicatos e formação continuada, buscando formas de resistência ou mesmo de sobrevivência contra a precarização do trabalho. Ainda que essa atuação provoque um aumento na jornada de trabalho e até gastos financeiros.

Diante dos elementos apresentados, recorremos a Petita (1994), que também questiona o papel social da escola vista como exclusivamente reprodutora. Porque para ele a escola talvez não proporcione apenas a reprodução. Por esse motivo, o autor levanta questões surpreendentes, entre as quais destacamos uma e que não vamos nos preocupar em responder, mas vamos fazer uma pausa para apresenta-la: “Que tal se a difusão de processos automáticos, da informática, e menores jornadas de trabalho, resultem numa percepção da educação como algo mais autônomo?” (PETITA, 1994, p.28).

            Parece um estranho questionamento, que nos faz pensar o quanto o espaço escolar e a instituição de educação infantil são imprevisíveis e supõem uma condição de autonomia relativa de nós professores. Desse modo, queremos apresentar outras perguntas as quais também não serão respondidas neste momento, com o intuito de continuarmos analisando a imprevisibilidade e buscar entender que lugares são a escola e a instituição de educação infantil e qual é o trabalho do professor, por esse motivo perguntamos:

1º O que poderá vir a acontecer com uma escola e uma instituição de educação infantil cujos professores são provenientes dos estratos mais baixos da sociedade?

2º O que acontecerá se estes professores se entenderem como pertencentes à mesma origem de seus alunos pobres? Optarão por defender princípios que aproximem a educação e o trabalho em um modelo um pouco mais próximo ao de Gramsci?

3º Conseguirá a classe dominante ter total controle sobre a gigantesca categoria de professores? Qual controle conseguirá exercer?

4º E se o número de mestres e doutores em educação crescer tanto, de forma que possam estar bem representados na escola? Farão a diferença?

5º Como o professor se vê? Como um membro da classe dominante? Como um trabalhador, próximo do operário?

6º Qual é o valor dado ao professor nas escolas e instituições de educação infantil localizadas nas regiões mais pobres? É diferente do valor dado ao professor que trabalha com a elite? Como o professor sente esse valor?

7º Se ele se sente mais valorizado na educação pública, junto às populações mais pobres, isso pode modificar sua prática educativa?

            Depois dessas questões finalizamos nosso texto, marcado por um momento repleto de muitos outros questionamentos em virtude dos estudos de doutoramento e da busca incessante de ir produzindo aproximações do objeto de nossa pesquisa que abordará sobre a prática docente na educação infantil.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CATTO, T. C. L. Um estudo da atividade docente pelo significado e sentido da queixa escolar. Campo Grande-MS: UFMS, 2002. (Dissertação de Mestrado)

CONTREIRAS, J. Autonomia de professores. Trad. Sandra Trabuco Valenzuela, revisão técnica de Selma Garrido Pimenta. São Paulo: Cortez, 2002.

FRIGOTTO, G. (org). Educação e crise do trabalho: perspectivas de final de século. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. (Coleção Estudos Culturais em Educação).

GOMES, M. F. C.; SENA, Maria G. C. (Orgs.). Dificuldades de aprendizagem na alfabetização. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organização da cultura. Trad. Carlos Nelson Coutino. 6 ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1988.

KUENZER, A Z. As Relações entre conhecimento tácito e conhecimento científico a partir da base microeletrônica: primeiras aproximações. (Mimeo.).

LERENA, C. Trabalho e formação em Marx. In: SILVA, T.T. Trabalho , educação e prática social: por uma teoria da formação humana. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

LIMA, F. P. A . Medida e desmedida: padronização do trabalho ou livre organização do trabalho vivo. In: FIDALGO, F. S. (org.). Gestão do trabalho e formação do trabalhador. Belo Horizonte-MG: Movimento de Cultura Marxista, 1996.

MARX, C. Para a crítica da economia política. Trad. Edgard Malagodi, Leandro Konder, José Arthur Giannotti, Walter Rehfeld. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Os economistas).

NOGUEIRA, R. M S. O ciclo Básico: estudo de uma experiência desenvolvida na Rede Municipal de Ensino de Corumbá-MS (1987-1993). São Carlos–SP: Universidade Federal de São Carlos, 1998. Dissertação de Mestrado.

OSÓRIO, Alda M. do N. (Org.). Trabalho docente: os professores e sua formação. Campo Grande, MS: E. UFMS, 2003.

PESSANHA, E. C. Ascensão e queda do professor. São Paulo: Cortez, 1994. (Coleção questões da nossa época; v.34).

PETITA, A . Produção da escola, produção da sociedade: análise sócio-histórica de alguns momentos decisivos da educação escolar no ocidente. Porto alegre: Artes Médicas, 1994.

SAVIANI, D. Educação: do senso comum à consciência filosófica. 10 ed. São Paulo: Cortez, 1991.

TARDIF, M., LESSARD, C. O Trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Trad. João Batista Kreuc. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.

 



[1] É professora da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados). Na UFMS, é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação, membro da Linha de Pesquisa Educação e Trabalho e membro do GEFPP. A pesquisa de doutorado é financiada pela FUNDECT. O endereço eletrônico é rmessa@uol.com.br

[2] Professores Inara e Antônio, eu gostaria de discutir sobre a utilização dos termos positivo e negativo. Não sei se os utilizo corretamente.