AFINIDADES E ALIANÇAS PROGRAMÁTICAS – a articulação de sujeitos e processos em posições homólogas no espaço social

 

Freitas, Leana Oliveira

 

1. INTRODUÇÃO

 

No processo de produção do conhecimento, sobretudo, em sua manifestação mais clássica que é a pesquisa científica, desvencilhar-se de noções pré-construídas, colocá-las sob suspeita, mais que uma intenção deve traduzir-se numa postura teórico-metodológica necessária e rigorosa, sob pena de que o que se produz resulte simplesmente numa ratificação dos modelos hegemônicos e não em um conhecimento capaz de operar transformações na sociedade.

Nesta postura investigativa, Pierre Bourdieu tem se mostrado como uma referência obrigatória por apresentar um modo peculiar de trabalhar a construção de conceitos no mesmo movimento em que trata da própria realidade, isto é, conceitos constroem-se na prática, tornando-se, portanto, instrumentos de análise. Incorporar esta direção é, no mínimo, desafiador, por requerer de partida um exercício de desapego e desprendimento de objetos e noções pré-construídas compreendendo que o ordenamento do mundo social tal como se expressa tende a ser naturalizado, ao mesmo tempo negado como construção social.

A idéia, portanto, é que conceitos inspirados em Bourdieu (1998; 1999) venham a ser operados permitindo desvendar os processos de construção social, seus discursos e generalizações que sob aparente harmonia e integração ocultam paradoxos, conflitos e contradições, revelando do mesmo modo que os esquemas de percepção, pensamento e ação, têm sua gênese fincada nas próprias estruturas sociais.

No campo das políticas públicas, pode-se afirmar que o processo geral que informa as etapas de sua formulação, implementação e avaliação, o policy cicle, resulta quase sempre de interações entre diferentes sujeitos que se enfrentam na defesa de interesses, na maioria das vezes, antagônicos. Como processo político suas etapas têm sido, tradicionalmente, levadas a efeito de modo independente, linear e ao momento da elaboração tem se dado maior destaque por se acreditar que o êxito de uma política depende em maior grau de uma adequada elaboração.

Muitos estudos de políticas públicas (Silva e Melo;2000,p.8) têm demonstrado, porém, que o ambiente no qual operam os formuladores é repleto de incertezas. Tais incertezas manifestam-se, seja na limitação cognitiva daqueles que a formulam sobre os fenômenos sobre os quais atuam dada a sua complexidade e as limitações das explicações teóricas sobre eles, sejam limitações de ordem mais operacional como escassez de tempo e recursos. Além disso, os formuladores não têm condições sequer de prever, quanto mais, como almejam, controlar as contingências futuras que afetam a implementação da política. Os planos, programas e documentos, por sua vez, mais que modelos a serem fielmente seguidos deveriam, em tese, funcionar como guias, parâmetros e referências abrindo espaço para comportamentos discricionários permitindo aos implementadores práticas inovadoras e criativas.

Na verdade, a formulação, tradicionalmente, tem sido encarada como o momento mais rico da política, que em sendo bem formulada do ponto de vista técnico tem grandes probabilidades de sucesso. Esquece-se, no entanto, que os formuladores, entre outras coisas, se deixam levar por suas preferências individuais daí porque, a maioria dos programas, não reflete a realidade, expectativa e necessidades da coletividade.  Este é o traço mais marcante do policy cicle quando concebido como processo simples e linear no qual os problemas decorrentes da implementação são necessariamente entendidos como "desvio de rotas". Esta visão ingênua e irrealista do funcionamento da administração pública, segundo Silva e Melo (2000,p.8), pretende assegurar à implementação - aqui entendida como etapa subseqüente à formulação -  fidelidade na aplicação do desenho concebido no interior da burocracia.

É, pois, intenção deste artigo, realizar um exercício analítico despretensioso de livre pensar, - porém responsável e igualmente consciente de suas implicações dado que no âmbito dos estudos sobre políticas públicas esse caminho reflexivo é pouco explorado -, o qual se impõe como tarefa identificar os possíveis arranjos e expedientes operados pelos agentes legítimos e legitimados durante os processos de nomeação e classificação e que uma vez trazidos à superfície permitam corrigir o descompasso ou a lacuna existente entre as etapas de formulação e de implementação de políticas públicas e ainda articular sujeitos e processos em posições homólogas no espaço social. A referência teórica como já apresentada são as categorias analíticas de Bourdieu, em especial, as noções de habitus, campo e espaço social. Estas categorias serão aqui compreendidas bem ao gosto deste autor, de modo relacional, observando suas interações e complementaridade. A noção de habitus, por exemplo, não pode ser apreendida aparte da de campo que, por sua vez, situa-se dentro de um determinado espaço social, o qual constrói - se na base de princípios de diferenciação ou de distribuição constituídos pelo conjunto das propriedades que atuam no universo social considerado, quer dizer, apropriadas a conferir, ao detentor delas, força ou poder neste universo. Os agentes e grupos de agentes são assim definidos pelas suas posições relativas neste espaço (Bourdieu, 1989, p. 134).

No pensamento de Piere Bourdieu (1998) há sempre uma posição dos sujeitos que constroem um campo.  Esta posição é determinada, segundo este autor, com base no capitalsocial e cultural – que os sujeitos detêm, considerado em proporção ao reconhecimento atribuído por um determinado grupo. A análise se complexifica à medida que exige a identificação de como ocorre a produção e distribuição deste capital entre os agentes, por intermédio das relações de poder entre os envolvidos na sua construção. O reconhecimento da legitimidade de um princípio supõe, mais uma vez, entender como ocorre a imposição de princípios de visão e divisão do mundo social, que faz a garantia e eficácia de um discurso.

 

 

2. A LUTA PELA IMPOSIÇÃO DE UMA VISÃO E (DI)VISÃO DO ESPAÇO SOCIAL:   o processo de formulação e implementação de políticas públicas

 

 

A sociedade para Bourdieu assemelha-se a um campo de batalha (Miceli, 1992, p. LIII) operando com base na força e no sentido, com ênfase especial, à força do sentido. As lutas que se sucedem no interior da sociedade vão além das disputas no plano material e alcançam, sobretudo, o espaço do simbólico.

A partir desta perspectiva, procura-se aqui, desvendar o movimento de construção teórica dos modelos de políticas, seus pontos de vista informativos e performativos, práticas envolventes e decorrentes, com destaque à atuação dos agentes no processo de produção e reprodução social ou, dito de outra forma, o modo pelo qual uma determinada visão sobre um determinado problema social e as estratégias de seu enfrentamento tornam-se legítimas, assumindo a força de verdade, fazendo ver e fazendo crer. A idéia é promover um exercício sociológico nos termos de Bourdieu - ainda que num estágio bastante inicial - que permita analisar  a capacidade operativa das práticas sociais colocando-as em questão, como também revelar e dimensionar os conflitos no interior do campo técnico-científico na luta para instituir uma determinada visão/di-visão do espaço social.

Os implementadores estão, pelo tipo e volume de capital de que dispõem em posição mais próxima dos usuários da política do que os formuladores. Por outro lado, - como já referido anteriormente -, a execução de uma política tem sido comumente encarada como a fase menos nobre do processo geral de política pública. De maneira alguma, esta localização é aleatória ou natural como transparece. No campo intelectual ou científico, há diferenças de posições, definição e hierarquia de lugares e que na luta pelo critério mais legítimo de classificação a qual, por sua vez, está sempre subordinada à sua função prática e orientada para produção de efeitos sociais, contribuindo para produzir aquilo está sendo prescrito, ou seja, produzindo a própria realidade objetiva vão se instituindo disciplinas mais modestas e outras mais ilustres. Compatibilizar interesses e práticas diversas, ainda que produzidas no mesmo campo, constitui o grande desafio das políticas públicas que ao pretender impor-se à crença coletiva precisa produzir, com sua energia mobilizadora, as condições da sua própria realização.

É aqui que entra a noção de habitus em  Bourdieu. Noção essa que tem relação com a capacidade criadora, ativa e inventiva dos agentes que atuam dentro de um campo de possibilidades. É um conhecimento adquirido e também crédito - um determinado tipo de capital - que condiciona a ação dos agentes ao mesmo tempo em que por ele é condicionado. Os agentes são reconhecidos como operadores práticos no processo de construção do objeto. Sendo um sistema de disposições duráveis e transferíveis o habitus integra todas as experiências passadas funcionando a cada momento como uma matriz de percepções, apreciações e ações. Através de transferências de esquemas similares e graças às correções incessantes dos resultados obtidos é possível resolver os problemas sempre da mesma forma. Sendo assim, o habitus torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas e dialeticamente produzidas por aqueles mesmos resultados.

No mundo social, porém, muito pouco podem os indivíduos agir sobre o sistema de regras (constrangimentos). Por outro lado, o mundo social só se apresenta de uma determinada forma porque esses mesmos indivíduos o aceitam como tal, ou seja, os indivíduos nele acreditam e contribuem para sua reprodução. Ao mesmo tempo em que o habitus é influenciado e condicionado pela estrutura social não é dela totalmente dependente tendo em vista as estratégias de criação e a inserção dos agentes no espaço social. 

Os agentes atuam mediante estratégias ou cálculos, mas nem sempre racionais, ou estritamente econômicos, pondera Bourdieu  (1989),  já que, para ele, as pessoas não agem movidas unicamente pelo interesse material ou pela busca da maximização do lucro monetário. O agir, o pensar, o sentir, de modo geral, são interiorizados e incorporados pelos agentes no decorrer de sua trajetória de vida, de modo que o  habitus se manifesta, fundamentalmente, pelo sentido prático, ou seja, pela aptidão para se mover, agir e se orientar de acordo com a posição ocupada no espaço social e de acordo, ainda, com a lógica do campo e da situação aos quais os agentes estão implicados.

A noção de campo, por sua vez, é definida por Bourdieu como de produção de relações objetivas dentro do espaço social. Compreender a gênese social de um campo e apreender aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrário e do não motivado os atos dos produtores e as obras por eles produzidas e não como geralmente se julga reduzir ou destruir (Bourdieu, 1989, p. 69).

Para Bourdieu (1989), o movimento pela constituição e autonomização de um campo deve ser compreendido como um processo de depuração em que suas especificações se orientam por aquilo que as distinguem e as definem de modo exclusivo para além dos sinais exteriores, socialmente conhecidos e reconhecidos da sua identidade. O processo que institui qualquer campo deve ser compreendido a partir da análise da história da lutas travadas em seu interior, buscando abstrair sua verdadeira essência. Porque, se cada campo possui uma história verdadeira isto significa, tão somente, que seus agentes e seus produtos, pela sua pertença, se acham objetivamente situados em relação aos outros agentes e suas obras e a luta que se expressa em movimentos de ruptura ou de conservação é em torno da busca de legitimidade às formas de categorização. Na realidade, as lutas que têm lugar no campo intelectual têm o poder simbólico como coisa em jogo, quer dizer, o que nelas está em jogo é o poder sobre um uso particular de uma categoria particular de sinais e, deste modo, sobre a visão e o sentido do mundo natural e social  (Bourdieu, 1989, p. 72).

A produção do senso comum, ou nos termos de Bourdieu, a nomeação legítima é resultado de lutas simbólicas pelo seu monopólio, operadas no interior de um campo específico, isto é, pelo poder de fazer ver e fazer crer, uma imposição oficial explícita e pública da visão legítima do mundo social. A organização desse mundo, o estabelecimento de um consenso em torno dele é uma das funções lógicas da cultura dominante cumprindo sua função ideológica de legitimar e sancionar um determinado modelo de dominação. Sob influência Durkheimiana,,  Bourdieu admite que a  organização interna de um sistema de  classificações referencia-se por um modelo oferecido pela própria sociedade admitindo, ainda mais, que os sistemas simbólicos são linguagens dotadas de uma lógica própria. 

Por outro lado, Bourdieu (1992, p. 296) recusa a encarar os agentes como mero suportes das estruturas, daí porque preocupa-se em descobrir as leis através das quais as estruturas ao se reproduzir produzem também agentes dotados de sistema de disposições capaz de engendrar práticas adaptadas às estruturas, contribuindo por esta via para sua reprodução. A reprodução social seria mediada não só pelos agentes como pelas instituições que cumpririam o papel socializador ao definir os princípios e as significações de um determinado arbitrário cultural, estabelecendo vínculos entre os sistemas simbólicos e a estrutura social.

O habitus, por sua vez, seria a mediação necessária entre, de um lado as estruturas e suas condições objetivas e de outro, as situações conjunturais com as práticas por elas exigidas o que acabam de conferir à práxis social um espaço de liberdade que, embora restrito e mensurável porque obedece aos limites impostos pelas condições objetivas a partir das quais se constitui e se expressa, encerra potencialidades de inovações e transformações sociais (Miceli, 1992, p. XLI). Conhecer o mundo social e mais precisamente as categorias que o tornam possível, em outros termos, o modo de percepção legítimo é em si objeto de disputas políticas, cuja luta é ao mesmo tempo teórica e prática pelo poder de conservar ou de transformar o mundo social conservando ou transformando as categorias de percepção desse mundo( Bourdieu,1989, p. 142).

Fazer existir, objetivar, tornar público, enfim nomear é, segundo Bourdieu (1989) uma das formas elementares de poder político, um considerável poder social que vai conferindo ao mundo social uma organização baseada na lógica da diferença, constituindo distinções inconfundíveis.  A distinção, ou capital simbólico, não é outra coisa senão o capital qualquer que seja sua espécie, quando percebido por um agente dotado de categorias de percepção resultantes da incorporação da estrutura da sua distribuição, quer dizer, quando conhecido e reconhecido como algo de óbvio (Bourdieu, 1989, p. 145).

Para Bourdieu, na luta pela imposição de uma visão legítima do mundo social ( luta da qual a ciência se acha inevitavelmente envolvida ) os agentes detêm um poder proporcional ao seu capital, isto é, em proporção ao reconhecimento atribuído por um determinado grupo. Em outros termos, significa reconhecimento da legitimidade de um princípio que permite a imposição de princípios de visão e divisão do mundo social, o que garante ao discurso eficácia performativa.

Em se tratando de políticas públicas, o discurso oficial é aquele que se restringe às dimensões da eficiência e eficácia dos planos, programas e projetos e aos objetivos previstos no momento de sua elaboração pelos profissionais legitimados pelo Estado que, a partir do repertório fornecido por seu habitus profissional manifestado no capital simbólico do qual é detentor, dá ênfase ao desenho técnico da política, ao aparato burocrático e às condições técnicas de sua execução.

 Bourdieu, no entanto, destaca que o ato de tentar dar existência à coisa nomeada não depende só e exclusivamente do reconhecimento consentido àquele que o detém. Depende, ainda, do quanto este discurso está enraizado na realidade do grupo ao qual ele se dirige anunciando-lhe identidade, proporcionando, ao mesmo tempo, uma visão idêntica de sua unidade. Dito de outro modo, os esquemas de percepção e de apreciação que estão na origem da nossa construção do mundo social são produzidos por um trabalho histórico coletivo, mas a partir das próprias estruturas deste mundo. Sendo estruturas estruturadas, mas dentro dos limites de sua correspondência com estruturas preexistentes e historicamente construídas, as categorias de pensamento contribuem para produzir o mundo social. Só um nominalismo realista ou firmado na realidade permite explicar o efeito mágico da nomeação, ato de força simbólico que só é bem sucedido porque está bem fundado na realidade (Bourdieu, 1989, p. 238).

Reside aí, portanto, a importância de se incorporar ao processo de formulação e implementação das políticas os grupos por elas envolvidos e interessados, dando coesão ao habitus que em algum momento possa, em função da posição ocupada no campo técnico-científico, ter se diferenciado.  A identificação dos atores, em especial executores e usuários, de seus mecanismos de concertação e negociação, de suas estratégias de ação deve ser incluída no desenho estratégico das políticas públicas favorecendo a construção de alianças programáticas, impedindo que se realize a tendência que possuem, principalmente as de caráter redistributivo, de sustentar-se apenas na adesão fortuita e muitas vezes oportunista de setores das burocracias especializadas. Implementados dessa maneira, os programas na área social teriam pouca legitimidade social e baixa sustentabilidade (Silva e Melo, 2000,p.13) e  não teriam ainda, o efeito de nomeação legítima ou oficial.

 A nomeação oficial é, então, aquela imposição simbólica que tem a seu favor a força do coletivo e que anuncia, ao mesmo tempo, aquilo que está em vias de advir. É o ponto de vista autorizado de um agente autorizado, ou seja, um mandatário do Estado que detém o monopólio da violência simbólica legítima (Bourdieu, 1989, p. 146). É o Estado quem produz as taxionomias oficiais, fixando normas, condutas e hierarquias. Aos peritos ou profissionais cabe a tarefa de produção dos problemas oficiais, isto é, situações dotadas de uma espécie de universalidade decorrente do fato de serem esses profissionais reconhecidos e legitimados pelo Estado e que se servindo da autoridade da ciência garantem e afiançam a universalidade, a objetividade, expondo publicamente o desinteresse da representação burocrática dos problemas: a monopolização do universal é resultado de um trabalho de universalização realizado, principalmente, no interior do próprio campo burocrático (Bourdieu, 1996, p. 122).

Sabe-se, porém que as burocracias governamentais não são desinteressadas e sua racionalidade tende a eliminar ou insular o processo de implementação de políticas públicas do jogo político mais amplo atribuindo a este a responsabilidade pelos particularismos e corporativismo presentes tanto na etapa da elaboração quanto na da execução, enquanto que as administrações burocráticas teriam a prerrogativa de fazer valer o interesse coletivo.

Essa visão de administração pública como um mecanismo operativo perfeito, é francamente idealizada e corresponde, segundo Silva e Melo (2000), ao tipo ideal nos termos weberianos de uma  burocracia pública hierárquica que caracteriza-se por informação perfeita, controle, clareza de objetivos, fortalecimento de regras perfeitas e uniformes, linhas únicas de comando e autoridade, além de legitimidade política e consenso quanto ao programa ou política a ser desenvolvidos (Silva e Melo, 2000,p.8).  Isto significa tão somente para Bourdieu (1989, p. 84)  que  a  própria vontade de dominar é produto do campo que ela domina e faz reverter para ele todas as coisas.  Por outro lado, continua o autor  ( 1989, p. 76) reduzir os agente ao papel de executantes, vítimas ou cúmplices de uma política inscrita na essência dos aparelhos – como postulam os marxistas althusserianos – é permitirmo-nos deduzir a existência da essência, ler as condutas na descrição dos aparelhos e, ao mesmo tempo, fugir à observação das práticas e identificar a pesquisa com a leitura de discursos  com matrizes reais das práticas.

Não restam dúvidas, por outro lado, que a despeito das lutas simbólicas que ocorrem no interior do campo burocrático pelo poder legítimo de nomeação ele é também espaço de auto-reprodução, de práticas conflitantes, mas também complementares e até mesmo cúmplices e de alianças fortuitas, às vezes ambíguas. Dessa forma, é preciso compreender a gênese e a estrutura desse universo de agentes estatais que, ao produzir um discurso performativo sobre o Estado acabou por produzir  uma ordem autônoma, capaz de impor amplamente à submissão a suas funções e ao seu funcionamento e, sobretudo, o reconhecimento legítimo de seu princípios sobre o ordenamento do mundo social.

A esse propósito, no campo das políticas públicas, teóricos neo-institucionalistas não cansam de afirmar a capacidade das burocracias em influenciar a elaboração e implementação de políticas públicas destacando fenômeno do policy feedback como sendo uma capacidade das políticas de proporcionar recursos materiais e  incentivos aos atores políticos, como também o atributo que têm políticas anteriores de impactar os processos cognitivos dos atores definindo os termos da  elaboração futura de outras políticas ou ações governamentais (Faria, 1998). É como se habitus  burocrático impusesse assim, uma matriz geradora durável, mas flexível o suficiente de modo a permitir uma certa margem de improvisação regulada. Em outros termos, tenderia, a não apenas reproduzir as regularidades inscritas nas condições objetivas e estruturais que presidem este sistema gerador no interior do campo burocrático, mas que permitisse ainda ajustamentos e inovações diante das exigências postas pelas situações concretas exteriores ao próprio campo, pondo à prova sua eficácia.

O processo de policy feedback na visão dos neo-institucionalistas, significa que as ideologias e os valores culturais influenciam o discurso político, mas este também é influenciado pelas características das políticas existentes. Estas conformam o entendimento dos problemas a serem solucionados, conformam os interesses a serem preservados ou destituídos e, sobretudo, conformam as capacidades institucionais de ação das burocracias. È deste modo que as políticas sociais previamente estabelecidas afetam a ação política su.bseqüente (Arretche, 1995, p. 34).

No entanto, dada a importância da fase de implementação da política é justo que os grupos dominados – e aqui leia-se executores e usuários – encontrem formas de fazer valer sua concepção de mundo e suas expectativas com relação a política a ser desenvolvida.  Aceitação ou resignação é o que cabe aos dominados quando, em relações de forças simbólicas, entram na luta isoladamente. Nesta situação não resta senão concordar com a definição dominante da sua identidade, como também assimilá-la, aceitando-a como identidade legítima. Por outro lado, é a luta coletiva pela subversão das relações de forças simbólicas que possibilitará aos grupos dominados tomarem para si o poder de definição do mundo social em conformidade com seus próprios interesses, expressando a luta por sua autonomia.

Os usuários da política que, tradicionalmente, ocupam posição dominada no espaço social estão também em posições dominadas no campo da produção simbólica.  Os mecanismos, portanto, de produção simbólica capazes de romper com a lógica desta reprodução e que lhes permitam expressar o seu próprio ponto de vista sobre o social deverão vir de uma fração de profissionais envolvidos no campo da produção cultural. Isto porque, na base das homologias de posição no espaço social, os elaboradores e executores da política possuem os instrumentos necessários de ruptura com as representações que se geram na cumplicidade imediata das estruturas sociais e das estruturas mentais que tendem a garantir a reprodução continuada de distribuição desigual do capital simbólico.

 Uma concepção avançada do processo de policy cicle pressupõe, portanto, que sob o legado de Bourdieu se compreenda a fase de implementação da política como aprendizado e necessariamente articulada a uma rede de agentes, sejam eles públicos ou não governamentais.

 

CONCLUSÃO

 

Como arremate do raciocínio empreendido até aqui é possível destacar que não há, nas proposições de Bourdieu, um sujeito social estático e a-histórico.  Há, na verdade, uma disputa constante entre os diferentes agentes para a definição de lugares e posições nos campos sociais que submetidos a um investimento político de construção favorecem a mobilização e a atuação desses agentes. Dessa maneira, discutir sobre a distribuição de capitais, habitus, campo e ocupação do espaço social é debater sobre a luta dos atores sociais, que pode, caso exista um trabalho de ação política, tornar-se prática e teoricamente uma ação coletiva com sentido de classe.

As noções de campo e espaço social propostas por Bourdieu, sugerem, portanto, que se assuma, a princípio, um posicionamento atento às diferenças construídas socialmente. Isso permitiria dizer que obriga inicialmente o investigador a perceber que, por mais homogeneizador que possa parecer o processo de ajustamento encetado pela ordem dominante ele suscita diferentes posicionamentos e que os campos, qualquer que seja sua natureza, constroem-se diferenciadamente. Assim, a necessidade de superar os limites das disposições incorporadas implica em desenvolver, às vezes, novos interesses. No caso das populações com déficits de capitais em suas diferentes manifestações, a obtenção de novas posições no espaço social requer um investimento de longo prazo na acumulação de alguma espécie de capital, em que a contribuição dos intelectuais, pesquisadores, técnicos é indispensável para construção de uma nova ação simbólica. Nesse quadro, a noção de interesse adquire relevância extraordinária porque os conflitos estabelecidos no interior dos campos serão determinados pelo interesse dos diferentes agentes (dominantes e dominados, de acordo com a quantidades e qualidade disponíveis de capitais, em determinado momento) em se manterem no jogo, seja para resguardar seja para melhorar sua posição. Para isso, devem acionar um conjunto de estratégias diferenciadas, de acordo com as características que vão sendo estabelecidas, historicamente, em cada campo. Nesse universo, o lugar dos agentes – e seu grau de proximidade com aqueles de outros membros do mesmo campo - irá fundamentar, em condições normais, a sua sensação de pertencimento em um determinado grupo engendrando um sentido e identidade de classe que, ainda que sob a forma de rascunho, proponha um novo projeto de sociedade, coletivamente afirmado e capaz de se opor ao imposto pela política dominante (Bourdieu, 1998).

 

 Bibliografia

ARRETCHE, Marta T. S. Emergência e desenvolvimento do Welfare state: teorias explicativas. Revista Brasileira de Informações Bibliográficas em Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Nº 39, 1º semestre, 1995, pp 3-40

BARREIRA, Irlys A . F. O legado de Bourdieu na construção de uma sociologia crítica (in memorian, 1930-2002). 2003, mimeo.

BOURDIEU, Pierre. 1996. Razões Práticas. Sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus.

_____ (coord.). 1997. A miséria do mundo. Rio de janeiro: Vozes.

_____1998 . O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

_____1998. Contrafogos – táticas para enfrentar a invasão neoliberal. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores.

_____1999. 5ª edição. A economia das trocas simbólicas. São Paulo. Perspectiva.

FARIA, Carlos Aurélio Pimenta. Uma genealogia das teorias e modelos de Estado de Bem-Estar Social. Revista Brasileira de Informações Bibliográficas em Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Nº 46, 2º semestre, 1998, pp 3-38.

SILVA, Pedro Luís e MELO, Marco André. O Processo de Implementação de políticas públicas no Brasil: características e determinantes da avaliação de programas e projetos. Campinas: NEPP/Unicamp nº 48, 2000.