A TELEVISÃO COMO FORMADORA DA SUBJETIVIDADE INFANTIL: O QUE ELA SIGNIFICA PARA CRIANÇAS DA 2ª FASE DO 1º CICLO DE UMA ESCOLA PERIFÉRICA DE CUIABÁ? *

 

SIQUEIRA, Aline Wendpap Nunes de.[1]

SPELLER, Maria Augusta Rondas. (orientadora)[2]

 

RESUMO

 

Este trabalho pretendeu analisar como crianças de seis a oito anos, provenientes de famílias com baixa renda, cursando segunda fase do primeiro ciclo do ensino básico, relacionam-se com a TV, o que dizem dela e que tipos de relações estabelecem com o saber intermediado pela televisão. Coletaram-se dados de agosto a dezembro de 2005, na Escola Municipal de Ensino Básico "Oito de Abril" em Cuiabá. A pesquisa embasou-se nos estudos da psicanalista Maria Rita Kehl que freqüentemente trabalha questões sociais de grande relevância contemporânea, e em publicações do comunicador Eugênio Bucci. Contou-se ainda com subsídios das autoras Maria Cristina Kupfer e Maria Augusta Rondas Speller que trabalham na intersecção Psicanálise e Educação. Utilizando-se metodologicamente entrevistas e Grupos Focais, chegou-se aos seguintes resultados: para os sujeitos a televisão é uma grande fonte de entretenimento, consideram-na apenas diversão, tanto é assim, que majoritariamente vêem desenhos; os jornais (considerados chatos, porque de difícil compreensão) são vistos por indicação dos pais. Muitos preferem assistir TV a brincar. Na visão das crianças, somente a escola é lugar adequado para aprender português, matemática, etc. Não percebem que a TV pode intermediar tanto a aprendizagem de tais conteúdos, quanto, modos de apreensão do mundo - ideologias e valores. Enquanto algumas crianças afirmam que a TV ensina a roubar, matar e drogarem-se outras dizem o contrário, que ela ensina a não roubar, não matar e a não se drogar. Percebe-se que muitas são levadas ao consumismo influenciadas pela televisão, moldando seus comportamentos pelo que assistem.


A TELEVISÃO COMO FORMADORA DA SUBJETIVIDADE INFANTIL: O QUE ELA SIGNIFICA PARA CRIANÇAS DA 2ª FASE DO 1º CICLO DE UMA ESCOLA PERIFÉRICA DE CUIABÁ?

 

 

"Quanto às crianças e adolescentes, é melhor ter ouvido uma voz dissonante daquilo que lhes enuncia a indústria cultural, mesmo que a palavra seja perdida, do que não a ter ouvido nunca." 

Maria Cecília Cortez Christiano de Souza (2001)

 

            O Grupo de Pesquisas “Educação, Subjetividade e Psicanálise”, da linha de pesquisa Educação e Psicologia, desenvolveu nos anos de 2003 a 2006 o projeto “Docência e Memória: a psicanálise escuta as professoras”. A partir deste projeto surgiu o sub-projeto "Professores, Escola e Educação segundo a visão da imprensa", para o qual fui selecionada como bolsista de Iniciação Científica PIBIC/CNPq/UFMT. Dei início a esta pesquisa que foi realizada junto aos principais jornais locais (Folha do Estado, A Gazeta e Diário de Cuiabá) e, para comparação elegeu-se a Folha de São Paulo. O objetivo deste sub-projeto era verificar o discurso da imprensa em relação à educação, escola e professores, nos anos de 2002 a 2004. Verificou-se que na imprensa local geralmente as matérias não são veiculadas de maneira que seu conteúdo estimule ações criativas que possam causar mudanças na educação infantil. O mais freqüente são notícias daquilo que não funciona, de coisas negativas. Entretanto, na Folha de São Paulo, páginas como a do colunista Gilberto Dimenstein semanalmente falam de experiências positivas, mostrando caminhos que podem ser seguidos. Em uma das matérias Dimenstein fala de um canteiro de obras de um colégio que serviu de sala de aula para alunos de classe média alta dizendo como a experiência de um servente, migrante nordestino, serviu de lição para os alunos, que posteriormente escreveram um livro, com o que ouviram dele.        

            A partir do desenvolvimento desse trabalho como bolsista e da monografia de conclusão do curso de Comunicação Social “Televisão e Educação: Como as crianças e pré-adolescentes vêem a televisão” várias questões foram surgindo para mim, como instigadoras de mais pesquisas, por exemplo: como a TV pode influenciar tanto as crianças? O que ela (TV) representa na vida das crianças? Que significados as crianças dão para a programação assistida? Como elas elaboram essa programação em seus cotidianos? E principalmente, como se dá a relação da televisão com a educação? Propus-me investigar estas questões no Mestrado em Educação, do Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso.

            A interligação entre Comunicação, Psicanálise e Educação – áreas próximas, que se complementam – é de tremenda importância para reflexões produtivas, a respeito dos conflitos contemporâneos. França (2002) nos diz o seguinte a respeito da interação da comunicação com outras áreas:

 

A reflexão sobre a comunicação suscita a contribuição de várias disciplinas, atravessa fronteiras estabelecidas, promove migrações conceituais, colagens, justaposições. O resultado dessa justaposição nem sempre é adequado, é verdade – mas é suscitador de novos sentidos. É na medida desse movimento de congregação de olhares diversos, com o objetivo de construir um novo olhar, que podemos pensar o campo de estudos da comunicação enquanto domínio ou espaço interdisciplinar.  

 

Desde os estudos de Freud (1914), verifica-se a ligação entre psicanálise e educação. Esta ligação tem ficado cada vez mais relevante, por possibilitar novos olhares no entendimento da subjetividade e da educação neste mundo mutante. Na contemporaneidade autores como Kehl (2004), Kupfer (2000), Mrech (1999), Calligaris (1997), Sayão (2002-2006), Speller (2002, 2004, 2005), são bons exemplos de conjuntores entre Psicanálise e Educação. Estes autores, imergidos na realidade atual, escrevem sobre as relações estabelecidas pelos indivíduos com os meios de comunicação de massa e destes com a educação. Ou seja, interligam educação, psicanálise e comunicação.

Além dos autores citados, que são ligados à psicanálise, é preciso citar nomes como os dos teóricos: Walter Benjamim, Theodor Adorno, Max Horkheimer, Junger Habermas, Marshall MacLuhan, Domenico de Masi, Jesús Martin Barbero, Umberto Eco, Joan Ferrés, que num plano mundial contribuíram para a formação das várias Teorias da Comunicação. No Brasil há vários nomes da área de Comunicação que têm contribuído muito para o desenvolvimento de um pensamento crítico sobre a comunicação e sua relação com a educação: Ismar de Oliveira, Ciro Marcondes Filho, Laurindo Leal Filho, Heloísa Dupas Penteado dentre outros. Em Mato Grosso algumas pessoas também têm pesquisado a interligação destas áreas dentre as quais se destacam: Maria da Anunciação Pinheiro Barros Neta, Lúcia Helena Vendrúsculo Possari, Maria Aparecida Morgado, Álvaro Marinho e Janaína Cristina Marques Capobiancco.

            Vê-se a todo tempo fartura de discursos opositores à TV, todavia, é ela que está presente na maioria dos lares, recebendo a atenção principalmente das crianças. Por este motivo, resolveu-se verificar como as crianças vêem a televisão, o que este meio significa para elas e como, mesmo com a programação que deixa muito a desejar, elaboram de forma criativa, inventiva e interessante o que viram pela TV. Ouvindo-as talvez se possa conhecer melhor os efeitos da TV.

            A presente pesquisa, adota o conceito psicanalítico de educação entendendo-a como a inserção do sujeito na cultura, como bem definido por Maria Cristina Kupfer (1999), a educação:

pode ser concebida como discurso social, e melhor ainda, como uma transmissão de marcas de desejo, o que a faz ampliar-se para todo ato de um adulto dirigido a uma criança com o sentido de filiar o aprendiz a uma tradição existencial, permitindo que este se reconheça no outro.

 

Para a psicanálise educação é algo amplo que acontece durante toda a vida de um sujeito, que será educado entre outras coisas, a partir das transferências por ele feitas; transferências “são reedições de pulsões, de fantasias, de uma série de eventos psíquicos anteriores que ganham vida novamente, não como passado, mas como presente, encarnando-se numa pessoa.” (Speller. 2004. p.36) Por meio das transferências o sujeito constituirá sua subjetividade, com características próprias e diferentes. Após ser constituída, a subjetividade não se revela somente pelo consciente, mas, sobretudo, tem determinações inconscientes. Na contemporaneidade, sua constituição não é apenas realizada com o auxílio de pais e professores. Os meios de comunicação (em especial a televisão) são fatores determinantes na formação de subjetividades. Para Maria Rita Kehl (2004. p. 46) a televisão é

 

[...] um veículo que é doméstico, cotidiano, onipresente (pode estar no ar, atualmente, 24hs/dia), e faz a ponte entre a individualidade privatizada e o espaço público que ela (TV) ocupa, ou, melhor, substitui. A televisão tornou-se desde o pós-guerra até hoje, um emissor de imagens tão onipresente e uniforme a ponto de ocupar o lugar do imaginário do Outro nas sociedades onde ela impera. As mensagens televisivas, em especial a publicidade, em sua unidade técnica oferecem imagens à identificação e enunciados que representam, para o espectador, indicações sobre o desejo do Outro. (Grifo do autor)

 

            As crianças são expostas desde muito novas à programação televisiva. Durante mesa redonda ocorrida no Congresso Educação e Transformação Social em 2003 Kehl, a respeito deste assunto, faz a seguinte colocação:

 

Toda a criança, desde pequenininha, é formada, pela televisão para gostar de televisão. Essa é a primeira forma de socialização que a televisão incute na criança pequena. Esse programinha [...] esse Tele-Tubs, quem tem filho pequeno deve saber, é um programa feito para fazer com que a criança muito pequena, que ainda não entende muito bem a linguagem falada, se apaixone pela televisão, perceba que esse objeto é importante para ela.   

 

Na maioria das vezes, a programação televisiva não tem a intenção de educar (no sentido pedagógico), como afirmaram Ricardo Hofstetter, coordenador da série Malhação[3] entre 2003 e 2004, e Patricia Moretzsohn, roteirista responsável pela novela Floribela[4], durante o 1º Encontro Internacional de Mídia para Crianças, promovido pela MultiRio. Acontece, geralmente, um despejamento de informações sobre os telespectadores. Entretanto, pensando-se em educação como a inserção do sujeito na cultura, através de diversos discursos, é lógico que estes programas educam. A televisão apresenta às crianças um mundo que é bem maior do que o que ela conhece; A TV realiza uma função muito importante na constituição do sujeito, imergindo-o na linguagem, apresentado-lhe, ainda que indiretamente (pela telinha), o grande Outro, que segundo Speller (2002. p.27) é alguém que doa significantes que poderão dar lugar a significações tais que, compartilhadas ou não, irão conformar a identidade daqueles a quem são oferecidas. Durante a Mesa Redonda acima referida Kehl afirmou que

 

[...] a televisão educa a criança o tempo todo. [...] não apenas os programas educativos. [...] a televisão educa mais do que a escola, com certeza, mesmo porque uma criança diante da televisão presta muito mais atenção do que diante da professora, está muito mais capturada. E educa mais do que os pais, mesmo porque muitos pais, ou cansados com seus problemas, ocupados, entregam a criança para ser educada pela televisão. [...] a televisão, de fato, prepara a criança para viver neste mundo. Ela é uma espécie de intermediário entre a criança e o espaço para fora da família.      

 

A psicanálise é uma das áreas que tem contribuído constantemente para as reflexões acerca da educação, porque como de acordo com Maria Augusta Rondas Speller (2002) a psicanálise entende a educação como um discurso social, então como um discurso ela é formada com contribuição de vários setores e quando vemos a educação desta maneira não ficamos presos a um esquema fechado do que é a educação, porque o discurso é circulante e assim também mutante.  

Kupfer (2000. p.27) diz que: “a psicanálise, desde o princípio, não opera com fatos observáveis, mas com interpretações, com sentidos. Em uma palavra: com linguagem”. E de que outra maneira se dá à educação senão pela linguagem? Apesar de a linguagem ser de certa forma abstrata e impalpável, ela nos constitui. Para Freud, somos seres da linguagem. Speller (2002) explica que "a linguagem permite a expressão individual, a singularidade, mas também, a construção coletiva de informações, tecitura do suporte simbólico”.

            A visão Frankfurtiana clássica da televisão diz que ela é um meio de comunicação que subestima a inteligência das pessoas e que torna os telespectadores seres alienados. Esta visão procura refletir principalmente sobre as falhas dos meios de comunicação. É uma teoria indispensável para reflexão sobre os meios de comunicação. Todavia esta pesquisa não pretende manter-se em uma visão Frankfurtiana da televisão, por acreditar que mesmo tendo tantos problemas a televisão pode ser um meio que – quando bem utilizada – auxilia a educação, porque ao lado de programas de baixa qualidade há também, programas inteligentes, educativos, criativos e inspiradores. Exemplos: Castelo Ratimbum, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Globo Ecologia, Globo Ciência, Cocoricó, dentre outros. Já que, na contemporaneidade não há como fingir que a TV não existe, uma vez que, ela está presente no cotidiano de todos, até mesmo daqueles que não assistem, mesmo os programas mais impensáveis contribuem para a formação dos sujeitos, como afirma Ferrés (1996), “até mesmo as telenovelas podem servir ao processo educativo”, então pode-se pensar que muitos dos programas, senão todos, podem ser discutidos de tal maneira que ajudem às crianças a falar e a serem mais críticas. Como sugere Ferrés (1996), os professores deviam procurar comentar em sala de aula os programas assistidos em casa, porque assim os alunos fariam ligações criativas e interessantes, entre a TV e a vida cotidiana. Entretanto o que acontece, ainda segundo Ferrés, é que os professores possuem certo temor em levar conteúdos e discussões vistos na tevê para a sala de aula, pois acham isso perda de tempo e que é mais importante para seus alunos aprender gramática, por exemplo. Assim, ao entrar em sala de aula, seria como se os professores e alunos deixassem de ser cidadãos do mundo, pois o professor está ali para ensinar determinado conteúdo e o aluno para aprender e estes acabam não tendo tempo para discussões “banais” sobre a “futilidade” que é a televisão. Contudo, a TV não vem para competir com o aprendizado da gramática ou de outros conteúdos, inclusive, ela pode contribuir para o aprendizado dos conteúdos. Um exemplo disto surgiu da pesquisa de monografia desenvolvida por mim, juntamente com Khadine Novazcki (2005) "Televisão e Educação: como as crianças e pré-adolescentes vêem a televisão", na qual as crianças assistiram uma cena da novela Senhora do Destino, na qual o personagem Giovanni falava de forma incorreta, ao ouvi-lo falar, elas riam muito, pois sabiam que estava errado, mas elas por sua vez, sabiam falar corretamente. A nós, todo o episódio teve valor de uma lição de gramática, ainda que regada a humor.

            Após levantamento bibliográfico em livros e internet, não foram encontradas pesquisas que ouvissem o que as crianças têm a dizer sobre sua relação com a televisão, como elas vêem este meio, quais suas queixas, o que consideram positivo na programação televisiva. A maioria dos estudos existentes são pesquisas que tratam da influência exercida pela televisão nas crianças. Por isto fez-se pertinente realizar uma pesquisa na qual as crianças pudessem falar, mostrando seus anseios, frustrações, e demais sentimentos para com a TV. Mrech (1999. p. 34) diz que “para a Psicanálise a palavra da criança precisa ser resgatada. Para que ela deixe de ser objeto dos desejos e necessidades dos adultos, para se investigar como ela pensa, sente, percebe o mundo à sua volta”. Elas não deixarão de ser objeto dos desejos dos adultos que as cercam, mas é preciso resgatar esta palavra para que a criança não fique presa a os desejos e necessidades dos adultos. Por isto esta pesquisa pretende ouvir as crianças e algumas de suas angústias, procurando saber principalmente qual é a visão delas sobre este meio. As crianças são as que mais horas passam diante da TV, no Brasil, segundo Azambuja (1995) 93% das crianças assistem TV durante a semana e segundo o site Midiativa,

 

São cerca de 50 milhões de seres
em formação [...] Atualmente, 85% dos lares brasileiros têm ao menos um aparelho de TV. Podemos calcular que existam no mínimo duas crianças em cada um destes lares, que ficam em média quatro horas diárias diante da TV.

 

Faz-se pertinente discutir sua influência e efeitos principalmente sobre as crianças, além do mais pensar nesta relação (TV-Educação) é algo da maior relevância na contemporaneidade. Para Levisky (1998)

 

A sociedade necessita se estruturar para exercer certo tipo de reflexão e controle sobre as conseqüências educacionais, éticas e morais que a ausência de critérios na área da comunicação pode gerar. Todos somos co-responsáveis. Deixar o controle exclusivamente sob a responsabilidade das famílias no mínimo é omissão.

           

No estudo monográfico “Televisão e Educação: Como as crianças e pré-adolescentes vêem a televisão”, acima referido, verificou-se que, para as crianças a televisão educa apenas quando ensina a fazer receitas culinárias, transmite programas educativos, como Telecurso 2000, ou por meio dos telejornais. Entretanto, de acordo com o conceito de Educação como discurso social (Kupfer 1999), adotado neste trabalho, não seria bem assim, pois o discurso televisivo tem sempre um impacto na constituição de subjetividades, alienando, criando valores, seduzindo, etc., causando muitas vezes, a ausência de sentido da escola – se a televisão ensina tudo, porque a necessidade de freqüentar a escola? –, da qual fala Maria Cecília Cortez Christiano de Souza (2001). Justifica-se, portanto, o objeto desta pesquisa.

 

TV E CONFIGURAÇÕES FAMILIARES

A influência da televisão se acentuou com a crescente igualdade de direitos conquistada pelas mulheres que tem acarretado muitas mudanças no cenário familiar contemporâneo. As crianças de hoje já não convivem da mesma forma com seus pais. As mães, antes “rainhas do lar”, saem de suas casas para trabalhar e já não se dedicam exclusivamente aos cuidados dos filhos e da casa. Muitas famílias contemporâneas são diferentes das de algumas décadas atrás. Vemos, por exemplo, pais separados, famílias onde os pais são casais homossexuais, etc. Essas alterações foram verificadas no censo de 2003 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/IBGE. De acordo com reportagem da revista Época de 29 de Dezembro de 2003,

 

Na última década, o número de famílias - de qualquer espécie - cresceu duas vezes mais que a população como um todo, embora o número de divórcios tenha triplicado e o de casamentos de papel passado diminuído 12%. Essa aparente contradição sugere que há cada vez mais gente formando famílias a partir de novas bases.

Uniões sem papel passado quase dobraram; casamentos oficiais diminuíram 12%; aumentou 64% o número de pessoas que moram sozinhas; divórcios triplicaram; casais sem filhos já são 39%; o número de mulheres que criam filhos sozinhas cresceu 53%; uma em cada quatro residências tem três gerações morando juntas.

           

A evolução tecnológica vem formando uma geração completamente “plugada” nas tecnologias. Atualmente desde o dia em que nascem as crianças são apresentadas à babá-eletrônica. Nilda Teves no prefácio do livro TV e Escola, de Guimarães (2001), diz que: "é pelos efeitos de sentidos que se pode analisar o poder dessa máquina discursiva. Ela produz, manipula, recria, mediante práticas discursivas, um imaginário que envolve os espectadores". As crianças, ao chegarem à escola, já têm milhões de horas passadas diante da tevê. Muita coisa do que sabem lhes foi passado pela tevê. Elas são educadas por este meio porque como explica Souza (2001) há uma "ausência de sentido instalada no coração do projeto escolar" e "em relação aos alunos, esse escoamento de sentido da escola, num nível macro de análise, está relacionado à falência da escola como meio de ascensão social". Assim "As crianças e jovens [...] são submetidos à mídia, que repete sem cessar a dispensa da escola nos valores do sexo fácil, da ganância e da notoriedade pelo espetáculo." Desta maneira a escola, que na maioria das vezes se mantém tradicional e positivista, não proporciona reflexões para que os alunos se tornem críticos e seletivos, diferentemente da TV que se apresenta totalmente atrativa estabelecendo com a criança uma relação de dependência psíquica e motora o que segundo Levisky (1998 p. 150) induz a estados que se aproximam de hipnóticos favorecendo a indução de suas mensagens.

 

SUJEITOS E CENÁRIO

            Os sujeitos desta pesquisa foram vinte e quatro crianças de seis a oito anos, estudantes da segunda fase do primeiro ciclo – antiga primeira série do ensino seriado – da Escola Municipal de Ensino Básico (EMEB) Oito de Abril. Antes de entrar no porque da escolha dos sujeitos é fundamental falar da escola em que a pesquisa foi realizada, pois este é o ambiente em que as crianças passam grande parte de seus dias. Quanto à definição do cenário de pesquisa, há concordância com o pensamento de Speller (2002. p.36) que afirma que falar do cenário é também falar das personagens, pois ele cria a atmosfera, e se de alguma maneira ele inspira as ações nele desenvolvidas, ao mesmo tempo é criado pelas personagens. 

A EMEB Oito de Abril está situada no Carumbé, ao lado de presídio homônimo, um bairro periférico da capital. Este fato não é qualquer coisa, pois em reportagem do telejornal MTV a diretora do colégio afirma que muitas crianças estão matriculadas neste colégio para ficarem mais próximas dos pais que estão presos lá, facilitando o acesso delas nos dias de visita. Daí surge uma explicação para o fato de muitos sujeitos afirmarem que já viram armas de fogo, mortes e outros tipos de agressões e violência. No entanto, só uma das crianças disse que seu pai está preso. À primeira vista a escola parece pequena, com apenas algumas salas de aula e a sala da diretoria, mas ao fazer um passeio por toda sua extensão verifica-se que ela possui um bom espaço.

Antes do início da pesquisa os sujeitos ainda não estavam totalmente definidos, sabia-se apenas que seria um trabalho com crianças e que provavelmente seriam de baixa renda, devido à escolha da escola que, como dito acima, fica na periferia da cidade. Conseguiu-se então trabalhar com a turma citada. Nesta escola existem duas turmas da segunda fase do primeiro ciclo, uma de manhã e outra à tarde. Por indicação da diretora foi escolhida a turma da tarde dado que, segundo ela, a professora desta turma era mais receptiva. As crianças são de baixa renda e a maioria delas são de cor parda, suas casas são sustentadas por ambos, mãe e pai, as mães trabalham vendendo produtos (artesanato, cosméticos etc.) permanecendo assim em casa. Entretanto, há uma parcela significativa destas que moram só com a mãe e são sustentadas somente com a renda delas, que trabalham em empregos tais como garçonete, cozinheira, diarista etc. Embora a maioria destas crianças possua a família em sua constituição tradicional de pai, mãe e irmão, já se percebe que muitas famílias possuem uma nova formação, não tradicional. Muitos são filhos de mãe solteira, pais separados, moram com avós, etc.

Esta pesquisa adotou o método qualitativo, porque pretendeu apreender algo da subjetividade que os métodos quantitativos não conseguem fazer. Utilizou-se também de Grupos Focais que possibilitam as trocas entre os próprios participantes, suscitando discussões, o que realmente aconteceu no decorrer da pesquisa. A utilização dessa metodologia foi muito proveitosa porque fez com que os alunos pudessem discutir assuntos talvez antes nem imaginados. As discussões dos grupos foram de alto nível para crianças com apenas seis, sete e oito anos. Utilizou-se também, como instrumentos de coleta de dados: entrevistas semi estruturadas e a realização de algumas brincadeiras.

 

METODOLOGIA

Os dados coletados no presente estudo, mostram que as crianças pesquisadas são de baixa renda e praticamente só assistem TV aberta. Mas outras pesquisas como a de Feilitzen (2002), de Azambuja (1995), do site Midiativa, etc., demonstram que a tevê é principal companheira da maioria das crianças, não importando classe social. Muitas mães e/ou babás enquanto fazem o trabalho doméstico colocam as crianças (principalmente aquelas nos primeiros anos de vida) diante da televisão, como a TV é uma novidade elas permanecem quietas e prestam muita atenção. Então desde muito cedo são envolvidas pelo fascínio da televisão. Desta forma, acontece de passarem a maior parte de seus dias diante da grande irmã (televisão), fazendo uma alusão a George Orwell, em seu brilhante livro “1984”, onde as televisões serviam para vigilância, não para serem vistas.

 

RESULTADOS

Como demonstram os dados coletados, praticamente todas as crianças pesquisadas passam em média oito horas por dia em frente aos canais da TV aberta. A televisão faz parte do cotidiano de todos os sujeitos, mas para alguns com maior intensidade, não apenas com relação ao tempo gasto por elas diante da TV, mas de acordo com a maneira como a televisão afeta diferencialmente cada criança. Há crianças que reservam parte de seus dias para brincar com irmãos ou colegas e outras não. 

Quanto à relação das crianças com a publicidade/consumo algumas crianças demonstram maior críticidade, enquanto outras estão imersas sem se dar conta, na febre consumista.

No início da pesquisa os sujeitos diferenciavam realidade e ficção contrapondo o gênero animação (em que os personagens são desenhados) ao gênero realista (em que os personagens são humanos). Para eles os desenhos de animação, eram “de mentira”, enquanto outros desenhos com “pessoas humanas”, como disse um dos sujeitos, as novelas, jornais, filmes e outros programas, gravados por pessoas, são “de verdade”. Usavam esta linha (do que é desenhado e do que não é) para identificar verdade e ficção.

No decorrer dos encontros dos Grupos Focais, os sujeitos, através das discussões, foram re-elaborando seus olhares, pontos de vistas e opiniões. Talvez isso tenha ocorrido pela possibilitação de circulação do discurso e por terem um espaço de escuta onde puderam refletir sobre o que eles mesmos estavam falando. Como diz a psicanálise, somos feitos na e pela linguagem, discursos estruturando nossas subjetividades e palavras desamordaçadas possibilitam elaboração e mudanças. Os sujeitos foram percebendo que na TV há muito mais mentiras do que apenas esta diferença entre ficção e realidade. Algumas vozes soaram dizendo exatamente isto, demonstrando que começaram a perceber que mesmo em programas jornalísticos como Cadeia Neles[5] há muita mentira. Verifica-se então que a pesquisa teve algum efeito sobre elas, porque passaram a perceber o que não é explicitado, mas sugerido, mentiras sutis que não estão em programas de ficção, mas sim naqueles que deveriam ter a ética de falar a verdade e serem imparciais. Assim, ficção deixa de ser a única coisa falsa dentro do universo televisivo. As crianças passam a compreender que há muita mentira nos conteúdos de programas nos quais antes viam somente verdade, por exemplo: Cadeia Neles, Cidade 40º (também chamado de Programa do Pop)[6] e programas religiosos sensacionalistas.

 

[...] uma vez, muuuuito tempo, que passou no Ratinho à noite, que tinha dois padres, um que era da evangélica e outro que era da Batissíma [acho que ela quer dizer Batista]. E eles chamaram alguns pessoal da família deles pra mentir, pra depois vomitar, pra ter espírito. E falando assim... e dano espírito.

           

Quando se inicia uma pesquisa, tem-se a idéia de que ela mudará muita coisa, causará uma verdadeira revolução, abrirá novos caminhos, olhares, perspectivas, mesmo que esta revolução seja apenas no âmbito da comunidade pesquisada.Mas depois de meses de pesquisa, muita leitura e reflexões, chega-se à conclusão de que todas as expectativas iniciais não passavam de desejos. Surgem dúvidas quanto ao papel da pesquisa, sua utilidade social. Mas, após alguma reflexão, e deixando-se de lado narcisismos idealizadores e sonhos quixotescos, verifica-se que por pequena que seja a contribuição é importante.

 

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*Este trabalho foi apresentado no VIII Encontro de Pesquisa em Educação da Região Centro-Oeste "Educação, Ética e Democracia", que aconteceu no ano de 2006 em Cuiabá MT. Foi publicado no CD do VIII Encontro de Pesquisa em Educação da Região Centro-Oeste "Educação, Ética e Democracia" incluso no GT 8 Nº 804 como trabalho completo. Aqui sofreu algumas modificações.

[1]Bacharel em Comunicação Social, Habilitada em Radialismo. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso/ PPGE UFMT. alinewendpap@yahoo.com.br

    [2] Psicóloga, psicanalista, doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São               Paulo, professora Adjunta II do Departamento de Psicologia do Instituto de Educação da Universidade               Federal de Mato Grosso. Na pós-graduação do Instituto, pesquisadora e coordenadora do Projeto Violência nas escolas: escutando todos os atores envolvidos – alunos, professores, funcionários e família –.”, do Grupo de pesquisa Educação, Subjetividade e Psicanálise da Linha de Pesquisa Educação e Psicologia, área de concentração Educação, Cultura e Sociedade. gurondas@uol.com.br

 

[3]Novela voltada para o público jovem, veiculada pela Rede Globo há mais de 10 anos no ar.

 

[4]Novela infanto-juvenil, veiculada pela Band, que tem seu roteiro baseado em uma novela mexicana. Une fantasia e realidade. É cheia de clipes musicais.

[5] Programa sensacionalista do tipo mundo-cão, que mostra crimes, acidentes, pessoas carentes pedindo coisas. O apresentador atua como juiz e júri frente à opinião pública. 

[6] Programa de auditório com artistas convidados, repleto de merchandising.