PROCESSOS DE CONSTRUÇÃO DA LÍNGUA ESCRITA

Rosane KOVAL

Quelen GIANEZINI

Miguelangelo GIANEZINI

INTRODUÇÃO

O estudo teve lugar na Escola Municipal de Ensino Fundamental Caminho Para o Futuro na cidade de Lucas do Rio Verde – MT.

Para desenvolver este estudo tomou-se por referência a classe de alfabetização que corresponde a 1ª Série do Ensino Fundamental de 8 anos. O eixo norteador foi a teoria construtivista com base na Psicogênese da língua escrita de Emília Ferrero e Ana Teberosky.

A reflexão ocorreu através de uma breve apresentação das concepções teóricas: Racionalista, Empirista e Construtivista e sobre as fases do desenvolvimento psicogenético da criança, segundo Piaget.

Para melhor desenvolvimento e compreensão do estudo apresenta-se uma síntese das características mais relevantes relacionadas às hipóteses de escrita necessárias para a construção da base alfabética e discute-se a questão de quando iniciar o processo de alfabetização.

OBJETIVOS

O Objetivo Geral é desenvolver um estudo com o enfoque no desenvolvimento infantil através da alfabetização descrevendo o processo de aquisição da língua escrita.

 

Os Objetivos Específicos são:

 

a)      Realizar uma pesquisa bibliográfica a cerca das teorias do desenvolvimento infantil;

b)      Desenvolver uma pesquisa para diagnosticar em qual hipótese de escrita encontra-se os alunos da classe de alfabetização pesquisada;

c)      Utilizar técnicas de pesquisa, como por exemplo, Mapas Cognitivos, e Observação Direta Intensiva para traçar o estágio de alfabetização em que se encontra cada aluno da classe de alfabetização.

d)      Selecionar uma amostra correspondente a cada hipótese de pesquisa e enquadrar o resultado na teoria construtivista no que se refere às hipóteses de escrita;

METODOLOGIA

O estudo teve lugar na Escola Municipal de Ensino Fundamental Caminho Para o Futuro, na cidade de Lucas do Rio Verde – MT.

Para desenvolver este estudo tomou-se por referência a classe de alfabetização que corresponde a 1ª Série do Ensino Fundamental de 8 anos. O eixo norteador foi a teoria construtivista com base na Psicogênese da língua escrita de Emília Ferrero e Ana Teberosky.

As técnicas de pesquisa empregadas foram: Pesquisa Bibliográfica, Pesquisa de Campo através da Observação Direta Intensiva, Pesquisa-ação e Mapas Cognitivos.

A Pesquisa Bibliográfica contou com a leitura, comparação e interpretação de obras relevantes de autores importantes e redes eletrônicas para compor o referencial teórico.

A Pesquisa de Campo através da Observação Direta Intensiva ocorreu de forma participante e o contato para coleta de materiais exigiu, tanto dos alunos quanto do observador, uma comunicação demorada e aprofundada, visto que o ambiente pesquisado necessitava de investigação cuidadosa a fim de retratar a realidade da maneira mais precisa possível.

A Pesquisa-ação visa uma intervenção planejada em uma realidade definida. O universo da pesquisa-ação contemplou 28 crianças entre 6 e 7 anos de idade, onde 50% era composto por meninas e os outros 50% era composto por meninos.

Thiollent define a pesquisa-ação como:

“um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.” (1988, p.14)

Foram elaborados Mapas Cognitivos para enquadrar as amostras coletadas aos níveis de escrita dos testes aplicados. Pois, para diagnosticar a hipótese de escrita, foi necessária a aplicação do teste das quatro palavras que consistiu em ditar, para cada aluno, quatro palavras e uma frase.

RESULTADOS

Concepções Teóricas

 

Ao longo do tempo muitas idéias foram surgindo, estabilizando-se e desestabilizando-se conforme a própria evolução do pensamento humano.

Na educação podemos citar como sendo marcos fundamentais no pensamento do desenvolvimento cognitivo: Piaget, Vygotsky, Wallon, Emília Ferrero e outros.

A concepção teórica que marca este estudo é a construtivista, muitas vezes denominada por sociointeracionismo ou socioconstrutivismo.

Ora, se falamos em construção é natural que estejam presentes aspectos internos e externos que envolvem o indivíduo, esse, através das experiências cotidianas, progressivamente (não cumulativamente) vai construindo sua aprendizagem, seu conhecimento.

Para favorecer a percepção entre as diferentes concepções teóricas ocorridas ao longo da história é necessário um breve relato:

RACIONALISMO (Platão)                                                              

·         Enfoca os aspectos internos do indivíduo (hereditariedade);

·         O sujeito já nasce com as estruturas mentais prontas;

·         O conhecimento é visto como algo que vem de dentro para fora;

·         O sujeito age sobre si mesmo e sobre o objeto.

EMPIRISMO (Pavlov-Skinner)

·         Enfoca os aspectos externos ao indivíduo;

·         O meio é que leva o sujeito ao conhecimento, ou seja, de fora para dentro;

·         Na perspectiva empirista, o conhecimento é transmitido e repassado pelos componentes do mesmo;

·         O meio age sobre o sujeito;

·         O conhecimento parte de estruturas mais simples para mais complexas.

CONSTRUTIVISMO (Piaget) SOCIOINTERACIONISMO (VYGOTSKY)

·         Objeto de conhecimento;

·         Meio ambiental;

·         Interação social.

 

Os estudos relacionados à Teoria Construtivista afirmam que o conhecimento ocorre por meio de interação. O indivíduo ao relacionar-se em família, na escola, no bairro, naturalmente e inevitavelmente sofre transformações e influências e também, transforma e influencia, construindo assim, seu conhecimento de forma gradativa segundo suas próprias características.

Sendo assim, o indivíduo vai formando seu intelecto aos poucos, interagindo com o mundo, tornando-se cada vez mais autônomo, construindo e buscando conhecimentos dentro de seu ritmo, seu interesse, suas necessidades e possibilidades.

Tanto o sujeito age sobre o meio como o meio sobre o sujeito. Ocorrem assim, trocas recíprocas numa interação contínua.

Essas teorias foram desenvolvidas por psicólogos, no entanto estão cada vez mais presentes nas salas de aula principalmente nas classes de alfabetização.

Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) Dezembro/1996, a educação precisava tomar novos rumos, estar aberta à modernidade para atender a uma clientela totalmente heterogênea, proveniente de inúmeros lugares, classes sociais, manifestações culturais, etc.

No Brasil, uma nova fase educacional precisava acontecer e o Governo Federal, torna Lei, através da LDB e dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), um enfoque não novo, mas reelaborado de como deve ocorrer o ensino e a aprendizagem nas instituições nacionais.

Por fim, como suporte mais direcionado, no ano 2001, lança o “PROFA” – Programa de Professores Alfabetizados, para dar conta das várias angústias dos educadores envolvidos, principalmente com as séries iniciais do Ensino Fundamental e com a Educação Infantil.

 

FASES DO DESENVOLVIMENTO PSICOGENÉTICO DA CRIANÇA SEGUNDO PIAGET

 

FASE SENSÓRIO-MOTORA (0 a 2 anos)

Nesta fase a criança necessita do adulto por completo e desenvolve seus sentidos, seus músculos, seus movimentos, sua percepção e seu cérebro.

O bebê brinca com o corpo, executa movimentos, começa a entender e reconhecer os braços, as pernas, os dedos. Olha, pega, ouve, apalpa, mexe em tudo o que encontra ao seu redor. Ao brincar o bebê incorpora ao cérebro, através dos sentidos, impressões verdadeiras que vão aflorar no desenvolvimento cognitivo.

Assim nenhuma criança nasce um gênio e nenhuma nasce tola. Seu desenvolvimento depende da quantidade de estímulos que receberá durante esta fase.

 

FASE SIMBÓLICA (2 a 4 anos)

A partir desta fase a criança passa a se definir e se estruturar como ser diferente dos animais. Intencionalmente a criança movimenta seus músculos e descobre possibilidades de dar forma ao mundo que a cerca através da experimentação e da manipulação das coisas.

Os jogos e as brincadeiras ultrapassam a ação da simples recordação de impressões observadas e vividas. A criança interfere criativamente na construção de uma nova realidade. Um processo através do qual se combinam os dados da experiência cotidiana correspondente à curiosidade e necessidade.

 

FASE INTUITIVA (4 a 7 anos)

Fase em que a criança se reúne com outras crianças para brincar, mas age, ainda, sem observar regras. Ela não consegue ainda coordenar seus esforços com os dos companheiros, mas sente a necessidade de estar junto com eles.

 

FASE DA OPERAÇÃO CONCRETA (7 a 12 anos)

É a fase escolar em que a criança incorpora os conhecimentos sistematizados, toma consciência de seus atos e desperta para um mundo em cooperação com seus semelhantes. Atividades como a dança, música, o teatro, tornam-se indispensáveis ao desenvolvimento, as quais favorecem a assimilação de estruturas básicas de comportamento.

Nesta fase a criança começa a pensar inteligentemente e a ter certa lógica. Começa a entender o mundo mais objetivamente e a ter consciência de suas ações, discernindo o certo do errado. A escola representa, nesta fase, a essência de sua formação.

HIPÓTESES DE ESCRITA

Construção da Base Alfabética

 

A construção da base alfabética surge de maneira espontânea nas crianças com aproximadamente três anos de idade. Nessa fase o que pensam e elaboram sobre a escrita convencional e que uma figura não é para ler, mas pode ser interpretada, pois para ler são necessárias outras marcas, diferentes das figuras. Quando quer escrever, inventa suas próprias letras. Apenas os substantivos podem ser escritos, pois a escrita serve para “marcar os nomes das coisas”. Acreditam que palavras com menos de três letras ou letras repetidas não podem ser lidas. Acreditam também, durante o processo, que uma letra basta para registrar uma emissão sonora. E ainda em dado momento de conflito, enxertam letras para aumentar a palavra considerada pequena demais para dar conta do seu significado. Ao final, percebem que se faz necessário combinar as letras para que representem os sons da fala e essa “combinação” obedece a regras convencionadas socialmente.

Porém, essa evolução só é possível quando as atividades de leitura e escrita realizadas em sala de aula porém a fim de possibilitar e garantir a aprendizagem.

Emília Ferrero, tratando dos níveis de evolução da escrita, separou-os assim:

Nível Pré-Silábico I: Uma criança com escrita pré-silábica I está iniciando sua vida acadêmica. Ainda precisa percorrer um árduo e longo caminho. Ainda não estabelece uma relação necessária entre a linguagem falada e as diferentes formas de representação. Acredita que desenhos são formas de escritas e que assim se escreve. Precisa garantir traços figurativos ou pseudoletras daquilo que quer escrever Acredita que o nome das pessoas ou coisas tem relação com seu tamanho ou idade. Assim, para objetos ou pessoas pequenas são atribuídos ‘nomes pequenos’ e para objetos ou pessoas grandes ‘nomes grandes’ (realismo nominal). Nessa fase ainda não separa letras e números, lê apenas gravuras, a leitura é global, não possui clareza com relação às categorias lingüísticas (letra – palavra – frase).

 

 


GUSTAVO

 

COLHER

 

GARFO

 

PRATO

 

XÍCARA

 

PANELA

 

 

Figura 1: Gustavo – 6 anos – Escrita Pré-Silábica I

 

Nível Pré-Silábico II: Nesse momento a criança já faz uso de sinais gráficos vendo que desenhos já não são necessários, pois não dão conta de registrar o que se deseja. É um nível intermediário, conflituoso. Percebe que desenhar não é escrever. Percebe também que os adultos não escrevem desenhando os objetos que estão a sua volta.

Em determinados momentos recusa-se a escrever dizendo que não sabe e ainda, afirma que com desenhos não se escreve.

Para Emília Ferrero (1999, p.198), esse conflito é rapidamente resolvido. Segundo ela “torna-se claro que a dificuldade de diferenciar as atividades de escrever e desenhar é apenas momentânea (...)”

Se quando solicitada a escrever, a criança grafa sinais e desenhos, já se pode considerar que o conflito foi vencido. Ela já sabe que o desenho não é escrita. Que a escrita é representada por letras. Mas se ainda desenha e escreve é possível que esteja estabelecendo relações entre um ou outro. Pensa que um depende do outro.

Ferrero (1999, p.200) explica que “...a imagem podia funcionar como um complemento do texto (...) como que promovendo um apoio à escrita, como que garantindo seu significado.”

Nessa fase passa a ter preocupações mais aprofundadas em relação à língua escrita. Preocupa-se com a qualidade de sua escrita, portanto, em uma mesma palavra, torna-se necessário uma variedade de caracteres gráficos.

Também se preocupa com a qualidade de caracteres. A maioria das crianças não admite escritas ou leitura com menos de três letras por palavra.

Esses critérios de quantidade e qualidade permanecerão por muito tempo e serão responsáveis por grande parte dos conflitos surgidos ao longo do processo de alfabetização.

Serão conflitos benéficos, responsáveis por gerar situações de incoerência e insatisfação, forçando a busca de novas formas de interpretação.

Para a criança, romper com conceitos já existentes e elaborar novos conceitos constitui um momento precioso de evolução dentro do processo de construção, ou seja, de reinvenção do sistema.

Ainda é peculiar a esse período, a inconstância tanto qualitativa como quantitativa das palavras. As categorias lingüísticas começam a ter algum significado.

 

 


EU COMI CARNE

 

SAL

 

CARNE

 

SALADA

 

FEIJOADA

 

ELAINE

 

 

 

 

Figura 2: Elaine – 6 anos – Escrita Pré-Silábica II

 


Nível Silábico: O nível conceitual Silábico significa um grande avanço na escrita da criança, porém, nesse período, o professor precisa ter muita atenção e habilidade para fazê-la evoluir. Do contrário, a criança acomoda-se, torna-se um Silábico convicto e problemas passam a existir.

Nesse período, a criança sabe muitas coisas sobre a língua escrita, por exemplo:

·     estabelece vínculo entre a escrita e a pronúncia, isto é, a criança trabalha com a hipótese de que a escrita representa partes sonoras da fala;

·     faz a correspondência quantitativa das sílabas orais e registra, para cada emissão sonora, uma letra (na palavra);

·     numa frase registra para cada palavra uma letra;

·     já compreende que há uma estabilidade para a escrita;

·     também sabe que não se escrevem apenas substantivos;

·     tenta dar valor sonoro a cada uma das letras que compõem a escrita;

·     vive em grande conflito quando precisa grafar palavras monossílabas;

·     começa a integrar os atos de ler e escrever.

·     cada aluno apresenta características peculiares, isto é, silábico a seu modo. Assim pode marcar sua escrita com letras, pseudoletras, apenas com vogais ou com consoantes, etc.

Quando a criança apresenta escrita silábica trabalha com hipótese de que a escrita representa partes sonoras da fala, no entanto, para ela cada letra corresponde a uma sílaba, assim utiliza-se de quantas letras forem as sílabas das palavras.

Para interpretar a produção escrita de uma criança, precisa-se acompanhar o processo de construção desenvolvido por ela. Como agiu no momento, se silabou, como leu, como ajustou o que leu ao que escreveu.

Ao acompanhar a construção, a análise de escrita ocorrerá de acordo com o ponto de vista da criança e não o do adulto.

Com esse acompanhamento se torna possível saber o que pensou e como procedeu ao escrever, e ainda, se torna possível detectar qual o nível conceitual de evolução da escrita que essa criança apresenta.

Para Emília Ferrero, (1999, p.213), “a hipótese silábica é uma construção original das crianças que não pode ser atribuída a uma transmissão por parte do adulto. Não somente pode coexistir com formas estáveis aprendidas globalmente (...), mas que pode aparecer quando ainda não tem letras escritas no sentido escrito (...)”

 

 

 


C       I     N      C     IA     A   C    A

EU   CO  MI   CAR NE    A SSA DA

 

 SAL-O

 

  CAR  NE

 

SA LA DA

 

FEI JO A  DA

 

ALEF

 

 

 

 

 

 

 

Figura 3: Alef – 7 anos – Escrita Silábica

 


Nível Silábico-Alfabético: Insatisfeitas com sua escrita, as crianças estão em contínua experimentação.

Em momentos, enxertam letras produzindo uma escrita ora silábica ora alfabética. Chamamos a esse período de conflito: ‘Hipótese silábica-alfabética’. Muitas características novas aparecem nesse período:

·     Apresenta dificuldades em coordenar tudo o que já aprendeu, pois sente dificuldades em conceber o curso cronológico oferecido pelo meio em favor da construção de sua escrita.

·     Já diferencia letras de sílabas e percebe que não pode representar uma sílaba grafando apenas uma letra, assim encontra o conflito quantitativo e acaba, sem nenhum critério, por aumentar letras aleatórias à palavra que deseja escrever.

·     No eixo qualitativo, a criança percebe que a identidade do som não garante a identidade das letras, nem a identidade das letras garante identidade do som. Descobre que existem sons iguais com grafias diferentes. Existem letras com a mesma grafia e vários sons. Também descobre que nem sempre se escreve do jeito que se fala.

·     Um problema (conflito) que se instaura nesse período e que os acompanharão por toda sua vida acadêmica é o ortográfico.

·     Ainda nesse nível, a criança grafa algumas sílabas completas e outras não.

·     Também é característica dessa hipótese de escrita a ausência de letras não se constituindo um retrocesso, e sim, parte importante para sua evolução.

Nesse período a criança já pode iniciar um trabalho realmente efetivo de leitura dos diversos portadores textuais e com as mais variadas formas de gêneros literários com diferentes tipos de modalidades de letras. Desta maneira torna-se importante o trabalho de construção do todo para as partes e das partes para o todo.

É durante esse estágio que utiliza-se de estratégias de leitura para certificar-se da veracidade do que está lendo e sente dificuldades em ler e escrever palavras com sílabas complexas.

 

 

 


LARISSA

 

FEI  JO   A   DA

 

SA  LA   DA

 

  CAR   NE

 

SAL

 

EU      CO - MI     CAR – NE              A  SSA   DA

 

 

 

 

Figura 4: Larissa – 6 anos – Escrita Silábico-Alfabética

 

 

 

Nível Alfabético: A hipótese silábico-alfabética também não satisfaz completamente à criança e ela continua na sua busca incansável de construção e superação de hipóteses a fim de procurar satisfazer sua ansiedade enquanto nova escritora.

Sentir-se-á melhor quando alcançar a fonetização da sílaba, ou seja, quando enfim perceber a constituição alfabética de sílabas que caracteriza a escrita da Língua Portuguesa.

No entanto, essa fonetização não é nem instantânea nem definitiva. É comum encontrar crianças, que ora escrevem com sílabas completas, ora de forma silábica, mesmo apresentando escrita alfabética. Nesse nível, a principal característica é o reconhecimento do som da letra.

Entretanto, nesse nível a criança ainda tem muitos problemas a resolver e precisa ser estimulada a continuar a elaborar hipóteses.

Um problema muito freqüente é o de acreditar que todas as sílabas são constituídas por duas letras, geralmente primeiro por uma consoante seguida por uma vogal. Precisa de intervenções adequadas para perceber sílabas com três letras ou mais. E ainda, quando aparece uma palavra iniciada por uma vogal a tendência é de grafar a 1ª sílaba de forma inversa. Exemplo: espelho à ‘sepelho’.

Outro problema encontrado no nível alfabético está relacionado com a segmentação das palavras. Ora escrevem tudo emendado, ora partem a palavra em vários pedaços, pois ao concentrar-se na sílaba acabam por não identificar as várias categorias lingüísticas.

Também é comum enfrentarem questões ortográficas, pois dão ênfase à adequação fonética do escrito ao sonoro. Começam a perceber que uma letra tem mais de uma função e assumem sons diferentes em diferentes situações.

A memorização e fixação mecânica, agora, são meios de auxílio para internalizar regras e convenções de palavras constituídas por grupos consonantais. Para tal, a criança necessita de muito esforço e raciocínio lógico. Do contrário terá imensa dificuldade da escrita e leitura de sílabas complexas.

O nível alfabético constitui o final da evolução construtiva da leitura e da escrita. O aluno continuará progredindo, eliminando suas dúvidas  uma a uma se tiver a oportunidade de ter uma aprendizagem marcada pela elaboração pessoal e de reflexão lógica. Assim, a aquisição da base ortográfica envolve a inter-relação de aspectos afetivos, sociais, culturais, lógicos, perceptivos, motores, etc., para que a aprendizagem seja de fato construtiva.

Para Ferrero (1999, p.217), “quando o meio não provê esta informação, falha uma das ocasiões de conflito. Por isso vemos crianças (...) chegarem até o nível da hipótese silábica, mas não além disso.”

É importante que o professor tenha clareza de que, ao atingir a escrita alfabética a criança já superou muitas dificuldades, tendo pela frente as questões ortográficas que não são problemas de escrita propriamente. Ferrero observa: (1999, p.219). “Parece-nos importante fazer essa distinção, já que amiúde se confundem as dificuldades ortográficas com as dificuldades de compreensão do sistema de escrita.”

 

    ESTAVA                  MUITO            GOSTOSA

 

   EU       COMI             CARNE             ASSADA

 

FELIPE

 

CARNE

 

SALADA

 

FEIJOADA

 

SAL

 

 

                                    Figura 5: Felipe – 7 anos – Escrita Alfabética


CONCLUSÃO

A alfabetização, se considerada do ponto de sua gênese, é iniciada na educação infantil. Ao manipular objetos, explorar rótulos, revistas, jornais, descobrir suas funções e utilidades a criança depara-se inevitavelmente com a linguagem verbal e não verbal. Quando imita alguém, manifesta seus sentimentos, explora o meio, quando ouve, conta, reconta, lê (o que está ao seu redor), dramatiza, faz mímicas, tem a oportunidade de estar em contato com as várias formas de linguagem. Essas oportunidades contribuem efetivamente para a construção das operações mentais necessárias e preliminares ao ato de ler.

Sabe-se, hoje, que a criança aprende a ler e escrever pensando. Ela, através das oportunidades diárias organiza seus conhecimentos e idéias formulando hipóteses que são confirmadas ou superadas, de acordo com seu desenvolvimento. Isso explica a capacidade que tem de descobrir como se lê ou como se escreve determinada palavra mesmo antes de ser treinada nem praticada em sala de aula.

A partir de Emília Ferrero descobriu-se que a criança não aprende a ler ou escrever quando chega a hora, não há um período necessário de prontidão e tão pouco ocorrem insights repentinos. O que ocorre é um processo contínuo, construtivo decorrente das experiências iniciadas antes do ingresso na educação formal.

Continuamente crianças chegam à escola praticamente à beira da escrita alfabética e outras que pouco sabem sobre o assunto. Essa diferença não deve ser atribuida às diferenças sociais e sim pelas experiências vivenciadas tanto no ambiente escolar como familiar.

O ambiente pode ser muito rico em situações de aprendizagem, com jornais, rótulos, caixas, revistas, etc., a serem explorados, dentro de uma família menos privilegiada economicamente e pouco rico nas mesmas situações em uma família com maior poder aquisitivo, porém, com pouco interesse em promover situações de aprendizagem e interação com as várias formas de linguagem. Esse ambiente terá como fruto uma criança imatura, que ainda precisa percorrer um longo caminho até chegar à alfabetização.

No entanto, o que se percebe é que as crianças das classes menos favorecidas acabam tendo a escola como principal interessada por sua aprendizagem, já que seus pais precisam subsidiar a família trabalhando o dia todo, ficando a educação tanto social como formal de seus filhos, para segundo plano.

No processo histórico, a Educação Infantil passou por dois extremos: ou um espaço recreativo ou um espaço de alfabetização forçada.

Como espaço recreativo, tinha a função de cuidar das crianças, alimentá-las, observar sua saúde e higiene, entretê-las enquanto os pais trabalhavam para complementar a renda familiar. Não havia preocupação com a evolução cognitiva das crianças e também não havia preocupações pedagógicas. A escola pública tinha essa função.

A alfabetização forçada obrigava as crianças, ainda muito cedo, a entrarem em contato com a educação formal da leitura, da escrita e da Matemática. A maioria dessas práticas eram usadas nas escolas particulares que, com o intuito de alfabetizar, submetiam as crianças à avaliação, classificação, competição, rotulação, tensão, etc., sofrimentos desnecessários que podem marcar profundamente uma criança em sua trajetória escolar.

Segundo a Teoria Construtivista, a função da Educação Infantil é a de favorecer situações de crescimento no desenvolvimento global, físico, social, intelectual e emocional.

Assim, estão presentes a recreação e a alfabetização redirecionadas, de forma a atender a criança como um ser único que precisa estar preparado para atender às exigências do mundo dos adultos. Para isso, desde logo, precisa ser incentivada a pensar, construir, resolver situações, posicionar-se, decidir, etc.

A classe de alfabetização deve atender às necessidades e ao ritmo de seus alunos. Ao professor cabe perceber quem é quem em meio a esse processo e mediar a aprendizagem com intervenções adequadas sempre tendo como fio norteador o interesse e a evolução de sua clientela, entendendo a alfabetização como um processo natural no desenvolvimento da criança.

Por esse motivo, as escolas precisam oferecer às crianças um ambiente agradável, instigador, um espaço onde a criança elabora a construção de seu conhecimento.

As salas de aula devem estar equipadas de acordo a possibilitar um espaço alfabetizador, onde são oferecidos os mais variados tipos de textos e seus portadores. Através da observação, comparação, manuseio, classificação, apreciação, reflexão, etc, é que a criança se apropria dos usos e funções da escrita, condição básica para a aquisição da língua escrita.

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